1 de janeiro de 2016
Sobrevivendo

Revisitações pt.2

(Sugiro que antes, durante ou após a leitura desse texto você ouça a música “Eu te agradeço”, do CD Preto no Branco. Segue o link: http://youtu.be/eiJ9wg5W9g).

 

Vencida a chegada a este pequeno paraíso escondido, escolhi inicialmente a segurança daquilo que já era hábito. Era meio, quase final da tarde do dia 04 de janeiro, uma segunda-feira. Dormi e, após acordar, fui à sala de ginástica e corri na esteira íngreme (muito mais do que imaginei estar, mas isso é assunto para talvez outra escrita). Voltei ao quarto e segui uma rotina digamos, normal: banho, jantar, leitura e sono.

No dia seguinte me arvorei a um passeio de quadriciclo pela região. As instruções eram simples: “você pega a trilha, Larissa, e pode ir até Barra Grande. Vá sempre pela trilha. Lá tem um restaurante tal onde você pode almoçar. Pode voltar à hora que quiser: se tiver escuro, é só ligar o farol”.

Instruções dadas sobre como operar o veículo, capacete na cabeça e bolsa com alguns poucos pertences, dentre eles um livro, amarrada com uma corda, lá fui eu saindo pelos portões da pousada. À minha direita, o mar de ondas bravas típicas de dias chuvosos. À minha esquerda, mata Atlântica. E sobre minha cabeça, um sol tímido e muitas plantas. Passei por muita areia, cascas secas de côco. Passei por carros e outros quadriciclos. Recebi buzinada no meio do mato. Quase capotei umas três vezes.

Taquicárdica boa parte do tempo, creio eu, em algum momento me perguntei porque fazia aquilo. Porque me aventurar por uma estrada desconhecida, embora tida por segura, num veículo que eu nunca tinha dirigido e sozinha? As respostas vieram muito rápido. Na verdade, as respostas eram outras perguntas. Porque não fazer? Se a vida me tinha me colocado em rumos aparentemente tão incertos, solitários e de novas descobertas, não seria esse passeio uma tradução perfeita de tudo isso?

E me vi feliz, mais uma vez rindo de mim mesma. Depois de cerca de uma hora pilotando, cheguei ao tal restaurante. Ficava no final de uma ladeira de areia fofa que desembocava numa praia. Desta vez uma praia de águas muito tranquilas, quase paradas, de onde se avistava outras ilhas da região. Estacionei meu “quadri” (a essa altura já éramos íntimos!) e me sentei.

Vi pessoas fazendo Stand Up Paddle, casais enamorados na água e fora dela, amigos fazendo farra e crianças sujas de areia. Vi um cachorro passeando e meninas novas remando caiaques. E o sol, já não tão tímido, dando mais vida a todo esse cenário.

Foi aqui que pensei, uma vez mais nestes últimos pouco mais de dez meses, que a vida se impõe. Por mais dura, cruel, árida e torturante que seja a morte, a vida se impõe. Ela pede passagem.

Quase todas essas coisas que vi pessoas fazendo eu já pude experimentar em algum momento passado, acompanhada de um grande amor. Mas agora eu me via desfrutando – de forma diferente, é verdade – da vida real que agora tenho, a qual me convida a (re)viver e (re)construir o meu mundo.

Reviver e reconstruir exige muito esforço e uma fé eu diria pouco maior que um grão de mostarda. Honestamente não encontro nada disso em mim mesma em boa parte do tempo. Talvez por isso tenha sido tão bom ser lembrada essa semana o texto de Daniel 11:32 – “O povo que conhece o seu Deus se tornará forte e fará proezas”.

Quando apenas conseguir viver já se torna uma proeza, enxergo mais claramente a dimensão da minha fraqueza e a imensidão da graça e misericórdia do Senhor. Depois de ter tomado banho naquele mar calmo, olhando toda aquela beleza ao meu redor e dizendo ao meu Pai Celestial, entusiasmada, que Ele havia feito tudo aquilo, tomei meu caminho de volta

Desta vez, o sorriso era mais fácil. Deixei o vento contrário bater no meu rosto e levar a viseira de Maressa (ela me emprestou sem saber). Parei o quadri no meio do caminho, desci correndo, peguei a viseira, dei muita risada e continuei trilha adentro rindo muito e cantando, quase numa cena Hollywoodiana: “Eu te agradeço por toda graça que me deu, por todo amor que ofereceu, sem eu merecer”.

Na volta, me perdi em uma parte da estrada e quase capotei uma única vez. Fiquei no quase, ainda bem! Cheguei de volta à pousada ainda com céu claro, como pretendia, e muito, muito feliz. Tenho certeza que esse passeio não era de longe o tipo de proeza do qual Daniel falou, mas conhecendo o meu Deus, tenho experimentado a proeza de viver e ser feliz quando nada parece contribuir para isso.

 

“A tempestade se passou

Quando eu ouvia só trovões 

Brilhou o sol tão lindo e me aqueceu 

Depois da chuva que me encharcou

Eu te agradeço

Só te agradeço…”

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