Sephora é o nome fictício que estou dando a uma paciente que atendi no consultório há cerca de duas semanas. Chegou à consulta atrasada e, creio por ter sido sua primeira vez na clínica, perguntou se ainda poderia ser atendida. Sem maiores problemas o foi. Entrou na sala um tanto quanto agitada, com seus cabelos loiros esvoaçando e, após sentar-se e me dizer que tinha trinta anos (mesma idade que tenho), me dirigi a ela perguntando como poderia ajudá-la.
A resposta de Sephora não me surpreendeu: “sei que você não é psicóloga, mas…”. E esse “mas” foi bem longo. A ausência de surpresa deve-se ao fato de eu já estar algo familiarizada ao fato de que muitas das minhas pacientes marcam consulta com cardiologista quando na verdade precisavam mesmo de uma psicóloga.
Sephora continou: “Estou fumando feito uma louca desde que acabou para mim um relacionamento de sete anos, por iniciativa dele”. E riu de forma irônica. “Quero parar de fumar e acho que fazer uma atividade física vai me ajudar nisso, então vim para você solicitar meus exames e dizer se posso iniciar meus treinos”. Continuei, como cardiologista, e enquanto ouvia um dado clínico e outro, via Sephora rir de si mesma e pensar alto coisas como “ajudei a criar os filhos dele” e “eu não tenho condição de iniciar outro relacionamento agora; primeiro preciso cuidar de mim”.
Contrariando a orientação dos meus terapeutas (o oficial e a extra-oficial), acabei me denunciando a Sephora. Disse a ela que apesar de ter terminado um relacionamento de quase dez anos, sendo seis destes casada, eu não estava fumando feito uma louca. Quando disse o motivo do meu término, Sephora não conseguiu esconder um ar de surpresa e tristeza. Apenas baixou a cabeça.
Terminamos a consulta, ela agradeceu, rimos juntas e pedi a ela que toda vez que pensasse em fumar para aliviar sua dor, lembrasse de mim. Conselho ridículo este já que eu também tenho meus recursos, por assim dizer. Não se trata de cigarro (as mais puritanas podem estar querendo apedrejar Sephora) mas, no meu caso, quantas vezes não me peguei tomando café feito uma louca para aplacar um pouco da ansiedade e tristeza.
Quantas de nós não estamos trabalhando feito loucas, estudando feito loucas, malhando feito loucas ou fazendo tantas outras loucuras para esquecer um pouco daquilo que nos causa dor. Passei o restante daquela quarta-feira pensando muito em Sephora e também em mim. Pensei em como é ruim sentir-se só e abandonada; às vezes até mesmo injustiçada.
E ao pensar na carteira de cigarros de Sephora e nas minhas muitas xícaras de café, lembrei de um conselho do salmista: “Melhor é refugiar-se junto ao Senhor do que depositar qualquer confiança na humanidade. Melhor é buscar refúgio no Senhor do que confiar em príncipes! ” (Salmo 118:8-9). O salmista que escreveu isso falava de um contexto bélico, em que ele podia encontrar proteção e salvação no seu Deus.
Na guerra diária pela sobrevivência (ainda que seja apenas uma sobrevivência emocional), cada vez que penso numa xícara de café quando me vejo perplexa, angustiada e sem saída, lembro-me do pedido que fiz a Sephora. Penso nos seus cigarros e fico com vontade de dizer a ela o que eu deveria dizer todos os dias a mim mesma: Sephora, Sephora, “melhor é buscar refúgio no Senhor…”.
