15 de agosto de 2016
Esperança

Gracioso

Talvez o melhor título para este texto fosse Síndrome de Takotsubo. Alguns também a chamam de Síndrome do Coração Partido, já que se trata basicamente de um quadro clínico de gravidade variável, em muitos aspectos – tanto do ponto de vista de exames quanto de sintomas – semelhante a um infarto do miocárdio, porém com as artérias coronárias normais, sem obstruções. O nome Takotsubo vem da língua japonesa e é a denominação dada a uma espécie de rede que eles usam para pescar polvos; quando se faz o cateterismo o coração aparenta ter o mesmo formato dessa rede. Já a expressão coração partido vem do fato desta síndrome ser desencadeada por um estresse emocional ou físico muito intenso e, adivinhem, é mais comum em…mulheres!

Pois bem, faz alguns dias que achei que era exatamente isso que estava acontecendo comigo. Trabalhava à noite e já bem tarde, sem mais demandas para resolver, cochilei. Para minha infelicidade tive aquilo que considero ter sido o pior pesadelo da minha vida. O conteúdo do sonho basicamente era ter de volta aquilo (ou melhor, aquele) que não é mais possível se reaver. Acordei absolutamente desesperada, no quarto escuro do hospital onde mais duas pessoas repousavam. Senti uma dor no tórax com todas as características que aprendi, como cardiologista, tratarem-se da dor típica de um infarto. Coloquei a mão no peito e, contida, comecei a chorar. De imediato abri o celular e tinha uma mensagem de uma pessoa conhecida, a quem eu pedi que orasse por mim.

A dor só fazia aumentar e com o pensamento típico de uma profissional de saúde que lida frequentemente com pacientes graves em UTI, previ minhas próximas horas de vida. Me vi internada, entubada, com cateteres por todo o corpo, usando balão intraaórtico (um dispositivo que ajuda a melhorar a circulação em pacientes com falência cardíaca por isquemia) e com algumas pessoas ao redor me olhando com aquele ar de “vai morrer”.  Não que a morte me parecesse exatamente uma má ideia naquele momento, afinal me livraria desses episódios de tamanho sofrimento há um ano e meio e que, pela primeira vez, havia se convertido em sintoma físico e dos mais insuportáveis (preciso abrir esse parêntese para dizer que não sou o tipo que reclama por qualquer arranhão; logo, se eu disser que está doendo, e muito, leia-se que estou sofrendo a ponto de me desintegrar).

Comecei a pensar na agenda de exames que tinha na tarde seguinte e que não seria cumprida. Como explicaria, caso sobrevivesse, que a origem daquilo tudo havia sido, em última análise, o meu luto? Só consegui, ainda com a mão no tórax, pedir a Deus por socorro. Depois de alguns minutos me levantei e fui ao banheiro, com a dor começando a ceder. Lavei o rosto e as lágrimas, voltando em seguida para a cama. Ao que parecia, ninguém mais havia acordado.  Não demorou muito eu apaguei novamente e no dia seguinte acordei com dor por todo o corpo, como se tivesse carregado muito peso o dia inteiro, com o colega que me substituiria dizendo ao telefone que havia chegado. Juntei minhas coisas e, diferente do que faço habitualmente que seria ir para a natação, voltei para casa. Triste no caminho, pedi a Deus que nunca mais permitisse que eu sonhasse ou sentisse aquilo novamente. Mas previ o meu dia encerrado naquele momento.

Depois de comer alguma coisa, fui para o salão (isso seria habitual depois da natação) e por volta do meio-dia já estava em casa novamente. Almocei e segui para o trabalho. Cumpri toda a agenda de exames e voltei de novo para casa. Não tive mais dor ao longo do dia, obviamente também não morri. Cumpri minha agenda do dia, exceto pela natação da qual abri mão. Minhas previsões catastróficas não se concretizaram e as coisas estavam razoavelmente dentro do normal.

Pude então ver nessa situação mais uma manifestação da graça de Deus. Algumas podem ter chegado até aqui na leitura no texto e concluir que tudo não passou de uma historinha dramática sem a menor graça. Para mim foi um dia de livramento; de Deus superar as minhas expectativas, já que tudo que eu vislumbrava para as horas seguintes do meu dia foi experimentar mais dor e talvez até morte. Eu previ que não conseguiria trabalhar mas acabei por cumprir toda a agenda.

Fiquei a imaginar que esse evento foi um a respeito do qual tive plena ciência da mão do Senhor interferindo na minha vida. E conclui que em muitos outros que se quer chegam à minha mente há também uma ação poderosa de Deus construindo o que não imagino construir, provendo o que eu não suponho ter, clareando onde não consigo enxergar um palmo à minha frente, mudando realidades que suponho serem imutáveis. Talvez seja por isso que o salmista diz que a graça de Deus é melhor que a vida. Porque mesmo quando a vida nos parece faltar, ela se manifesta. Das formas mais ou menos visíveis, Ele é sim um Deus gracioso!

 

“ Ó Deus, tu és o meu Deus forte; eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, como terra árida, exausta, sem água.

Assim, eu te contemplo no santuário, para ver a tua força e a tua glória.

Porque a tua graça é melhor do que a vida; os meus lábios te louvam”.

 

Salmo 63: 1 a 3

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