“Um bando de estrangeiros que havia no meio deles encheu-se de gula, e até os próprios israelitas tornaram a queixar-se, e diziam: ´Ah, se tivéssemos carne para comer!
Nós nos lembramos dos peixes que comíamos de graça no Egito, e também dos pepinos, das melancias, dos alhos porós, das cebolas e dos alhos.
Mas agora perdemos o apetite; nunca vemos nada, a não ser este maná!’ O maná era como semente de coentro e tinha aparência de resina.
O povo saía recolhendo o maná nas redondezas, e o moía num moinho manual ou socava-o num pilão; depois cozinhava o maná e com ele fazia bolos. Tinha gosto de bolo amassado com azeite de oliva.
Quando o orvalho caía sobre o acampamento à noite, também caía o maná”. (Números 11:04-09)
Sejamos honestas. Para quem estava acostumado a alho poró, peixes e pepinos, comer algo que se parecia com resina não devia ser das coisas mais agradáveis. No entanto, o maná era aquilo que vinha sustentando o povo de Israel em todo aquele período. Apesar deles tratarem o maná como “apenas isso”, era exatamente o que os tinha impedido de morrer de inanição no deserto. Já dissemos que mesmo naquele lugar inóspito, Deus se fazia presente. E a provisão que Ele nos dá para os momentos áridos e secos da vida pode não parecer a mais agradável, a mais palatável, nem a mais razoável; mas, em vindo de Deus, será suficiente para nos impedir de morrer de inanição, seja ela física, emocional ou espiritual.
Entre queixas do povo e atos de misericórdia e justiça de Deus, a saga pelo deserto prosseguia. Chegou então um momento em que Moisés manda doze homens para fazerem um levantamento do que de fato era Canaã. Uma das suas orientações foi bem específica: “Vejam…também qual é a terra, se fértil ou estéril, se nela há matas ou não. Tenham ânimo e tragam do fruto da terra. Eram aqueles dias os dias das primícias das uvas”. (Números 13:20). Os rapazes foram e trouxeram de lá, depois de quarenta dias espionando, “um ramo de vide com um cacho de uvas, o qual trouxeram dois homens numa vara, como também romãs e figos” (Números 13:21). Para o mesmo povo que elencou o cardápio egípcio diante de Moisés e de Deus foi apresentado um pequeno couvert dos frutos que havia na terra que seria deles: um cacho de uvas grande a ponto de serem necessários dois homens para carregar, além de outras frutas.
Creio sinceramente que isso não era tudo que havia Canaã, mas era apenas uma pequena amostra de Deus do que os esperava quando chegassem lá. Esses versos soam para mim como um aviso de que a caminhada no deserto era sim dura e penosa, mas aquilo que os aguardava era tão bom a ponto deles não mais sentirem falta do que comiam – não de graça, como haviam dito, mas sim à custa de sua escravidão – no Egito. Deus estava tentando dizer ao seu povo que Canaã não tinha nada a ver com a esterilidade do deserto. Como os espias atestaram, a terra “verdadeiramente mana leite e mel” (Números 13:27b). Os olhos daqueles homens haviam confirmado o que as palavras de Deus haviam antes proclamado. O fato de ser uma terra boa era verdade, assim como o é tudo o que o Senhor nos diz.
Mas como não houve fé, quarenta anos se passaram para que finalmente Canaã fosse conquistada, desta vez sob liderança de Josué (um dos únicos dois espias que haviam confiado no Senhor nesse episódio de primeira vistoria ocorrido quarenta anos antes). Moisés já havia morrido e Deus então passa as instruções para a conquista ao novo líder do povo.
Estando Canaã já sitiada, com seus reis tremendo de medo do povo de Israel pois tinham ouvido como eles haviam atravessado o Rio Jordão, Deus então pede a Josué duas coisas antes que os muros de Jericó fossem derrubados. A primeira delas foi que circuncidasse todos os homens, já que isso não vinha sendo feito nos últimos quarenta anos enquanto eles ainda estavam no caminho. A segunda, foi que celebrassem a Páscoa. Ambas as coisas, circuncisão e celebração da Páscoa, eram atos peculiares ao povo judeu. Deus os estava lembrando que eles eram SEU povo, diferente de todos os outros, e que a aliança com Ele era o que os tinha levado até ali e os faria viver a realidade de povoar aquele território. Há conquistas nas nossas vidas que não ocorrerão sem antes termos discernimento da nossa aliança com o Senhor e a celebrarmos, com atitudes de obediência.
Pois bem, essa Páscoa foi celebrada no dia quatorze do mês, à tarde, nas campinas de Jericó. Parêntese aberto aqui para enfatizar que Jericó já era um lugar de campinas, bem diferente do deserto. E então, “no dia seguinte ao da Páscoa, nesse mesmo dia, eles comeram pães sem fermento e grãos de trigo tostados, produtos daquela terra. Um dia depois de comerem do produto da terra, o maná cessou. Já não havia maná para os israelitas, e naquele mesmo ano eles comeram do fruto da terra de Canaã”. (Josué 5:10-12).
Além de uvas grandes, romãs e figos, Canaã também tinha pães e grãos de trigo tostados (não era mais pão com aparência de resina, tampouco deixava em nada a desejar ao menu egípcio). E foi exatamente um dia depois de terem comido aquilo que havia no seu destino final que o maná deixou de chegar para os israelitas. O maná foi uma provisão específica para um tempo específico, o tempo de deserto. Mas chega um momento em que Deus quer que comamos o produto da terra. Nesse momento, o maná não se faz mais necessário. Não há porque continuar carregando na bagagem providências de Deus que serviram apenas para um momento específico da vida. Se o deserto não é o destino final, mas apenas uma parte da trajetória, a provisão para sobreviver a ele não deve ser perene, mas temporária.
Do maná do deserto para os frutos da terra prometida! Comamos todo maná (ou, em outras palavras, façamos uso de toda provisão) que Deus enviar enquanto estivermos no deserto. Mas graças a Ele porque chega o tempo de comer do produto da terra! E é maravilhoso também notar que, em um e em outro lugar, a provisão veio do Senhor! Não haveria maná se Ele não o tivesse feito surgir. E não haveria uvas, pães, grãos de trigo tostados e tudo o mais que havia em Jericó se Ele não os tivesse feito chegar lá!
