16 de outubro de 2016
Aprendendo

Para Clio

Prezada Clio, falar sobre perdão é falar sobre algo delicado. Se conceder perdão for uma virtude cristã, e assim o considero, talvez seja das que mais me falta. Perfeccionista que sou, detesto errar e também, talvez Freud ou outrem consiga explicar, não gosto que errem para comigo. O pior é que no meu coração ainda carente de tantos consertos e reparos a coisa funciona mais ou menos assim: se eu pisar na bola para com alguém, por favor, perdoe logo, rápido. Mas se alguém pisar na bola comigo…melhor não arriscar fazê-lo.

A primeira grande experiência que tive quanto a perdoar, ao menos das que me recordo, se deu aos meus treze anos. Tão logo eu havia descoberto o que era estar apaixonada descobri também o que era estar desapontada. Me senti traída quando nossos colegas de escola descobriram que tínhamos “ficado” e ele veementemente negou a todos. Se eu dissesse que mal conseguia olhar em seu rosto estaria mentindo. Porque eu não conseguia mesmo, em hipótese alguma. Éramos vizinhos de parede, como se diz no interior, e também colegas de escola. E me dei conta que até ouvir a voz dele causava-me arrepio de tamanha aversão.

Foi então que em uma noite, sozinha no meu quarto, orando, comecei a chorar dizendo a Deus que sabia que precisava perdoá-lo, mas não conseguia fazê-lo. Sabia porque, “…se perdoarem as ofensas uns dos outros, o Pai celestial também perdoará vocês. Mas se não perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não perdoará as ofensas de vocês” (Mateus 6:15); foi o que Jesus ensinou concluindo a famosa oração do Pai Nosso (e ficar sem o perdão do Pai celestial…impossível!). E não conseguia, bom, pelo motivo óbvio: “…o que faço não é o bem que desejo…”, (Romanos 7:19) como o apóstolo Paulo também constatou de si próprio.

Mas como Deus é bom e misericordioso, Ele sempre nos dá uma maneira, na verdade a Sua maneira, de fazer aquilo que quer que façamos. Voltando àquela noite sozinha no quarto, depois de fazer essa confissão, o Senhor me deu o escape.

Lembrou-me que “toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada” (Mateus 15:13). Aquela árvore frondosa de rancor, mágoa e raiva que estava tão enraizada no meu coração não havia sido plantada pelo Pai celestial e, portanto, seria arrancada. Assim, durante três meses (isso mesmo, três meses!) orei repetidamente esse versículo toda vez que lembrava que precisava perdoar aquele rapaz.

Quando menos imaginei, de forma muito natural, me vi conseguindo olhar para ele novamente, ouvir sua voz sem que viesse ao meu coração um ímpeto enorme de vingança. Até voltamos a estudar juntos. Mas “ficar”, claro, nunca mais. Às vezes quem nos machuca precisa de perdão tanto quanto nós precisamos de sabedoria para evitar repetir erros passados. Dezessete anos se passaram deste fato, mas aqui e ali, ainda preciso recitar para mim mesma Mateus 15:13. Ainda preciso pedir a Deus que arranque as árvores – de mágoa e tantas outras coisas – que não foram plantadas por Ele em meu coração.

Se errar é humano, como dizem, perdoar é divino. Não somos deuses, mas o Deus que se faz habitar em nós através do seu Espírito é Aquele que “efetua em vocês tanto o QUERER quanto o REALIZAR” (Filipenses 2:14). Deus é capaz de gerar em nós o desejo de fazer o que precisa ser feito e a execução do que precisa ser executado. Para mim, perdoar é dessas coisas que só mesmo Ele é capaz de me fazer querer…e realizar!

Espero conhecê-la pessoalmente em breve! Um abraço!

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