11 de junho de 2016
Sobrevivendo

Enquanto isso…

Na minha infância e início de adolescência gostava muito de assistir ao Castelo Ra-Ti-BUM, um programa educativo para crianças. Um dos quadros que eu mais apreciava era anunciado pela expressão: “enquanto isso, no lustre do castelo…”. Daí a atenção era retirada de Nino e seus companheiros e dirigia-se ao que acontecia no lustre, onde moravam três passarinhos que nos apresentavam sons de diferentes instrumentos musicais. Gostava da ideia de saber que acontecia algo importante – música! – no lustre mesmo quando ele parecia apenas um objeto de decoração.

Hoje já crescidinha, há muitos anos sem ver o Castelo Ra-TI-BUM, ainda penso e vivo a expressão “enquanto isso”. O que fazer enquanto a dor não passa, a saudade não diminui, a sorte não muda? O que fazer enquanto o emprego não chega, a casa não fica pronta, o filho não nasce? Há muitas possibilidades, mas a atitude de um homem em particular tem me inquietado e desafiado em fé.

Relendo a história de Abraão, descobri que uma coisa que ele sabia fazer eram altares (não tenho certeza se ele gostava, mas sei que ele fazia). Abraão é apresentado pela primeira vez no final do capítulo 11 de Gênesis como filho de Tera. Alguns versículos depois, já no capítulo 12, Abraão (aqui ainda Abrão) já é mostrado como alguém com quem Deus falava – “Ora, disse o Senhor a Abrão…” (Gênesis 12:1). E neste momento Deus fala com ele coisas muito especiais, dentre elas uma ordem de mudança: Abrão, saia daí e vá para um lugar outro que eu vou te mostrar.

E Abrão, sabido que era, “Partiu (se fosse hoje seria #partiu) como lhe ordenada o Senhor”. (Gn 12:4).

Nessas andanças, o versículo 7 do capítulo 12 registra que o “Senhor apareceu a Abrão e lhe disse…”. Após mais essa conversa, no mesmo local ele “edificou um altar ao Senhor, que lhe aparecera” (Gn 12:7). Abrão continua andando e ao chegar a Betel advinha o que ele fez? “Edificou um altar ao Senhor e invocou o nome do Senhor” (Gn 12:8).

O moço continuou a caminhar por ali, talvez contra o vento, sem lenço e sem documento e “mudando as suas tendas, foi habitar em Manre…e levantou ali um altar ao Senhor” (Gn 13:18).   Quando da edificação deste terceiro altar, alguns anos já haviam se passado desde que Deus disse a Abraão que ele seria pai de muitas nações, que a descendência dele seria numerosa, que toda aquela terra que ele via seria dada a ele e às suas gerações futuras. Mas e o filho? Abraão edificava altares enquanto ele tinha apenas palavras saídas da boca de Deus ao invés de fraldas sujas para trocar!

Fico realmente impressionada com a capacidade deste homem em crer nas palavras de Deus! Pensando no significado desses altares, duas coisas me ocorreram: Abraão os edificava porque reconhecia a autoridade daquele que havia falado com ele. Se Abraão tivesse tido uma conversa com o compadre da esquina, talvez ela terminasse em churrasco, um abraço e até logo. Mas ele havia recebido o Deus Todo-Poderoso e, portanto, sua atitude de edificar um altar era como que um reconhecimento de que sabia quem Deus era. E justamente por isso, e aqui vai minha segunda impressão, Abraão agradecia. Deus não tinha a menor obrigação de falar com ele muito menos de prometê-lo coisas tão grandiosas, mas ainda assim o fez. O altar representa o reconhecimento de autoridade, mas também de gratidão pela bondade de Deus para com aquele velho que se tornaria pai de muita gente.

Confesso que nestes dias estou muito mais para Sara do que Abraão. Numa dessas visitas de Deus ao seu marido, Sara ouviu de canto essa história deles gerarem um filho e a reação dela foi rir, incrédula daquilo. Ando assim, gargalhando de incredulidade no meu interior da possibilidade da vida melhorar, da dor passar e do sorriso ser fácil. Mas recebi há pouco dias um telefonema de outro continente de uma amiga me lembrando que Ele, Deus, ainda é El Shadai, o Todo-Poderoso.

Essa amiga ainda me trouxe uma terceira impressão sobre o significado dos altares: é uma forma de estarmos sempre nos lembrando do que Deus prometeu. Segundo ela, escrever para mim é uma forma de construir um altar. Como estou a duras penas tentando, enquanto isso, na solidão da minha casa…eis aqui um texto.

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