No segundo semestre do ano de dois mil e treze, estando ainda casada, resolvemos fazer uma reforma no apartamento. Não daquelas de se pintar uma ou duas paredes e trocar alguns móveis de lugar. Foi uma reforma de, literalmente, derrubar o apartamento e construir outro. Ficamos três meses fora de casa enquanto todo o processo ocorria e precisamente no dia trinta de dezembro retornamos ao novíssimo lar. Considerando a dimensão do que foi feito, a obra se deu a passos de leopardo, mas não sem algumas poucas falhas.
Uma delas foi a não instalação de uma porta grande de vidro que no projeto original deveria separar o ambiente de dormir do closet. A pessoa (ir)responsável pela parte de vidros simplesmente desapareceu sem maiores explicações, deixando a peça encostada em uma das paredes do apartamento. Só há cerca de quinze dias, dois anos e meio depois de concluída a reforma, a peça finalmente se tornou aquilo para o que foi feita e posta no lugar. Durante todo esse período ela serviu apenas para ocupar espaço e causar risco de acidente, além de prejuízo financeiro. Mas o que isso tem a ver com Quiriate-Jearim? A princípio nada, mas explico-me.
Para assumir o território que Deus havia prometido a Abraão dar à sua descendência (já conhecemos essa história) a nação de Israel teve que entrar em guerra com alguns outros povos. Um deles era o povo filisteu que vez ou outra perturbava o coração dos judeus. Numa dessas batalhas, vencidas por Israel, a Arca da Aliança, objeto de extrema importância na vida religiosa do povo e, portanto, também para sua própria existência, foi devolvida pelos filisteus para Israel por eles acharem que aquele objeto extraviado para território inimigo era o que havia feito com que perdessem a batalha. Passando de mão em mão, a arca acabou parando na cidade de Quiriate-Jearim. E no versículo dois do capítulo sete do primeiro livro de
Samuel (I Sm 7:2) a Bíblia diz que “…a arca ficou em Quiriate-Jearim, e tantos dias se passaram que chegaram a vinte anos; e toda a casa de Israel dirigia lamentações ao Senhor”.
Como os livros de Samuel são livros históricos, talvez o autor tenha registrado que os dias foram passando até completarem-se vinte anos apenas para encurtar a história; ou seja, uma maneira de dizer que nada de relevante aconteceu nesse período que fosse digno de registro. Porém todas as vezes que passo por esse versículo, sobretudo quando leio que passados esses dias que viraram vinte anos a casa de Israel ainda se lamentava, penso se isso não seria um alerta de que quando coisas importantes ficam fora de seus devidos lugares (a arca não deveria estar na casa de um morador de uma cidade; ela deveria estar em um tabernáculo!), podemos nos acostumar tanto a isso que o tempo passa, dias se tornam anos, e continuamos a lamentar.
É como aquele vidro: grande, pesado, dizem que caro, e que durante dias ficou encostado numa parede sem a menor utilidade, ao contrário, correndo o risco de causar danos. As circunstâncias mudaram drasticamente: a reforma foi feita com Jorge e conduzida por ele. Agora estou tendo que recolocar coisas nos seus devidos lugares (e como dói fazê-lo, perdoem-me o desabafo!) sozinha. Tantos dias se passaram desde 30 de Dezembro de 2013 que chegaram a dois anos e meio. E a porta continuou fora do lugar.
Ainda bem que foi só uma porta de vidro. Porque quando a arca, leiamo-la como correspondendo ao papel que a presença de Deus tem na nossa vida, fica fora do lugar os prejuízos são muito maiores. Se o vidro tivesse quebrado eu teria perdido no máximo algum dinheiro e talvez um pouco de sangue. Mas se a arca fica lá em Quiriate-Jearim por dias, isso pode se tornar tão natural e aceitável que os dias acabam virando anos, muitos anos. Tomara essa associação não passe de um devaneio meu. Tomara Chico não tenha nada a ver com Francisco. Mas na dúvida, permita-me ir colocar mais algumas coisas, a começar no meu próprio coração, nos seus devidos lugares. Não quero estar daqui a vinte anos ainda me lamentando.
