5 de julho de 2016
Sobrevivendo

Nada de maquiagem!

Na última sexta-feira, estando de plantão em uma das UTIs onde trabalho, enquanto fazia a evolução dos pacientes ao lado do colega, o vi olhar subitamente em direção a um dos seus pacientes e perguntar: “o senhor está se sentindo bem”? A pergunta havia sido dirigida a um rapaz que estava agachado junto ao leito de uma das pacientes internadas, durante o horário de visita dos familiares. A paciente estava de fato grave, sedada, respirando com suporte mecânico, com sondas e cateteres em todo o corpo.

Olhei e vi o rapaz com as mãos no rosto. A resposta dele foi bem curta e engasgada: “estou com vontade de chorar”. Quase que instantaneamente, um dos membros da equipe o retrucou: “o senhor tem que ser forte. Ela precisa de você agora”. Ser forte? Fiquei com vontade de meter o meu bedelho na conversa e o apoiar para que chorasse, e chorasse muito, e chorasse alto se assim tivesse vontade (respeitando, claro, a privacidade das demais famílias).

Não seria possível contar quantas vezes desde 15 de fevereiro de 2015 não consegui ser forte.  Já chorei na praça de alimentação de um shopping lotado. Chorei na porta de um setor do hospital, vestida de jaleco, com a pecha de “doutora” com um corredor inteiro de pacientes olhando para mim. Já chorei sozinha no conforto desta mesma unidade onde estava na sexta-feira.  Já chorei no meio dessa mesma UTI, entre todos os meus pacientes, sob o olhar dos demais membros da equipe, simplesmente por um colega de faculdade que eu não encontrava há algum tempo ter me visto e abraçado externando solidariedade. E já chorei copiosamente no playground do prédio de uma amiga enquanto a aguardava descer para me encontrar.

Incrível como somos exigidas a sermos fortes diuturnamente. Parece que se tornou vergonhoso assumir fraquezas, dores, solidão. Não bastasse maquiagem para a pele, agora parecem sorrateiramente sugerir maquiagem para a alma. Há que se esconder as manchas do rosto, mas também as feridas do coração?

Lembro-me então de um dos episódios da vida terrena de Jesus relatados nos evangelhos. Diante da notícia da morte de Lázaro e vendo o choro de suas irmãs, Jesus pergunta onde estava o corpo do seu amigo. Quando as pessoas então vão mostrá-lo o local, sabe qual foi sua reação? Ele não deu dois tapinhas nas costas de

Marta, dizendo “fique calma, querida. O Rei dos Reis e Senhor dos Senhores, Todo-

Poderoso está aqui. Vai dar tudo certo”! Ainda que soubesse que daria tudo certo; ainda que Ele mesmo já tivesse provisão para o final dessa história, João capítulo 11, versículo 35 registra simplesmente que Jesus…chorou.

Naturalmente, não pretendo aqui advogar que necessariamente se faça como eu: que se chore no shopping, no trabalho, ou coisa assim. Apenas penso que devemos assumir para nós mesmas e às vezes também para os outros que não está dando nada certo! Assumir que está difícil mesmo, que ainda dói, que ainda dá vontade de chorar. Assumir que nem sempre é tão fácil de crer quanto parece e deveria. Acho que precisamos aprender com Jesus a dizer que nossa alma está angustiada até a morte quando ela assim o estiver, lembrando que esse momento de tamanho sofrimento se deu na companhia de três amigos mais íntimos, não no meio da multidão.

Para a pele, não falam opções: vá de MAC, Mary Kay, O Boticário, Natura, Avon e o que mais desejar. Disfarçar as imperfeições do rosto pode trazer de mal, quem sabe, alguma reação alérgica. Mas para o coração, para a alma, nada de maquiagem!

Prefiro seguir o conselho do profeta Jeremias, o chorão: “Levante-se, grite no meio da noite, quando começam as vigílias noturnas; derrame o seu coração como água na presença do Senhor…” (Lamentações 2:19a).

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