Aprendi mais cedo que parábola vem do grego parabole, que significa “colocar de lado” e é a expressão usada para designar “uma história simples e curta na forma de um tipo, figura ou ilustração com dois níveis de significado”, segundo comentário da Bíblia da Mulher. Fiquei um pouco mais confortável quando li sobre dois níveis de significado, já que recentemente me vi extrapolando, embora talvez essa não seja a qualificação mais adequada, o ensino da Parábola do Semeador, mesmo porque ela é a única para a qual a Bíblia registra uma explicação dada pelo próprio Jesus.
A explicação que se segue à parábola registrada em três dos quatro evangelhos é muito clara ao expor que se tratava das diferentes possíveis reações ou dos diferentes possíveis desdobramentos na vida de quem ouvia o Evangelho. Basicamente, haveria aqueles que não compreenderiam o que ouvissem e o maligno tiraria a palavra do coração da pessoa. Haveria também os que ouviriam, prontamente receberiam, mas, por não terem raiz, os problemas da vida tirariam a alegria pelas Boas Novas. Haveria ainda os que ouviriam, mas as coisas terrenas (sobretudo o fascínio pelo dinheiro), tornariam o Evangelho infrutífero na vida daquela pessoa. Por fim, haveria os que não apenas ouviriam, mas compreenderiam e frutificariam. Esses são aqueles cujos corações são considerados “boa terra”, e a semente então dá seus muitos frutos.
Pois aqui mora o problema. Não por ter lido novamente essa história, mas há algumas semanas, e por diversas razões, me dei conta de que meu coração já passou por todas essas estações. Digo não no que tange à aceitação ou não do evangelho; isto já seria fato consumado, mas refiro-me à receptividade que dou a sementes outras que o mesmo Jesus quis e ainda quer plantar na minha vida. Para ser mais clara, exemplifico. Diante de circunstâncias adversas, sobretudo quando se trata de perdas (grandes e trágicas) é muito comum ouvir de diferentes fontes expressões de ânimo e esperança. Coisas como “isso vai passar”, “tenha calma, você ainda é muito nova mas vai dar tudo certo” são muitas vezes ditas como forma de amenizar parte da dor.
Confesso que para um coração cheio de espinhos criados pela própria vida, sem raiz pois o seu solo fértil para sonhos e realizações foi subitamente removido, essas expressões muitas vezes geram uma reação de aspereza mais até do que de alívio. Ao menos comigo foi assim em alguns momentos. Houve dias em que diante de uma mensagem amigável, minha vontade era de responder “porque não é com você”, “seja forte você” e até “então deixa Deus tirar o seu marido para você experimentar da bondade Dele”. Então me dei conta que essa reação se dava não apenas para com os meus (minhas) amigos (as) terrenos, mas também para com o meu melhor amigo!
Percebi por diversas vezes Ele próprio querendo gerar novos sonhos, novas perspectivas, novos projetos no meu coração. E eu simplesmente rejeitava. Me prendia tanto a um passado lindo e quase perfeito, que me recusava ao menos a tentar olhar para frente. Afinal, pensava eu, o que de tão bom poderia estar esperando por mim se o que eu experimentei até aqui foi tão especial? E Deus insistia várias e várias vezes para que, ainda que em meio à dor de perceber que o passado recente havia sido tão maravilhoso mas ainda assim era passado, eu olhasse para Ele. A tentativa dele era para que eu confiasse a Ele o meu futuro tanto quanto entregava a dor do meu presente. Que eu pudesse crer que Ele ainda é poderoso o suficiente para me abençoar e fazer feliz, e pode fazê-lo das formas mais criativas e impressionantes que só o criador do Universo tem.
Foi então que me vi, como diria a letra da linda música de Jorge Camargo, “no silêncio do meu quarto, a sós com Deus, à meia luz…”, fazendo a seguinte oração:
“Senhor, torna o meu coração uma terra fértil para as sementes que você ainda quer lançar na minha vida”. Eu ainda tenho alguns espinhos por aqui; ainda há algumas pedras no solo e sei que cabe muito mais areia nesse terreno eu diria acidentado que é o meu coração. Mas espero que Ele tenha ouvido mais esse pedido. Como uma amiga me disse que acompanhava esses textos como quem acompanha uma séria de TV, acho que aqui termina a primeira temporada. Espero que a segunda, caso exista, seja reflexo dos bons (e muitos frutos) dessas sementes.
