Há coisas na Bíblia que parecem por demasiado difíceis de serem compreendidas ou até totalmente fora de contexto para o que se vive nos dias atuais. No entanto, como o apóstolo Paulo bem lembrou aos Romanos, ”tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança” (Romanos 15:4).
Um desses ensinos que tem servido para dar-me (ao menos essa é a intenção de Deus, creio eu) esperança, ainda é a caminhada do povo do deserto à terra prometida. Nos últimos dias especialmente me chamou à atenção o envio do maná. O maná nada mais era do que uma espécie de pão que Deus diariamente fazia cair do céu – não sei se literalmente falando ou não – para suprir o povo depois que havia deixado o Egito. Interessante que a Bíblia registra que esse envio de pão foi uma resposta de Deus à reclamação que chegava aos seus ouvidos, quando o povo dizia que no Egito eles estavam “sentados junto às panelas de carne e comíamos pão a nos fartar! ” (Êxodo 16:3).
Incansável que era de reclamar, ao povo não bastou o pão. E Deus, incansável que é de ser misericordioso, os supriu também com proteína, carne! Deus chama novamente Moisés e pede a ele que avise ao povo que “ao crepúsculo da tarde, comereis carne e, pela manhã, vos fartareis de pão, e vocês saberão que eu sou o Senhor, seu Deus” (Êxodo 16:11). E assim o povo foi caminhando por quarenta anos. Pela manhã, carboidrato (maná), fonte primária de energia para as atividades que se desenvolveriam ao longo de todo o dia – olha como Deus é sabido! Ao final da tarde, proteína (carne de codornizes), para manter massa muscular e força – e você pagando nutricionista para aprender a comer e perder peso!
Brincadeiras à parte, essa história, que continua sendo relatada até o livro de Josué, quando finalmente o povo adentra a Terra prometida como sua, tem falado algumas coisas ao meu coração. A primeira delas é que a caminhada no deserto talvez seja inevitável. Digo talvez porque, no caso do povo hebreu, esses quarenta anos de deserto foram resultado de sua incredulidade. Eles estavam às portas de Canaã e decidiram não acreditar que Deus cumpriria o que havia dito. Talvez se tivessem sido mais crentes, o deserto não teria existido. A segunda coisa é que, ainda que caminhemos no deserto, Deus está lá. Ele mandou suprimento – pão e carne – e ainda protegia o povo do calor intenso do dia com uma nuvem e à noite os aquecia com fogo. Deus não os havia abandonado. Apesar de todas as queixas que ouvia, Deus tinha uma aliança com aquela gente e não estava, como nunca esteve tampouco estará, disposto a rompê-la. Aliás, o que nos afasta de Deus não é Ele mudar de humor nem ficar instável emocionalmente,
como às vezes ficamos. O que nos afasta de Deus são simplesmente nossos pecados (Isaías 59:2).
Foi então que me ocorreu também que, não importa o que nos leva ao deserto, seja incredulidade ou tão somente as contingências da vida (sim, por favor, tiremos da cabeça essa ideia de que problema é sinônimo de castigo por algo errado que se tenha feito!), o deserto não é o destino final. Aqueles quarenta anos à base de pão e carne de codorna foram uma fase transitória na caminhada do povo. Seu destino final era Canaã, terra que jorrava leite e mel!
No Egito, lugar de escravidão e sofrimento, havia muito mais do que pão e carne. O povo sabia disso e até jogou na cara de Deus, se podemos dizer assim. Mas em Canaã, lugar de liberdade e conquista, havia muitíssimo mais e muitíssimo melhor do que havia no Egito. O lugar para onde Deus quer nos levar será sempre melhor do que o lugar de onde Ele nos tirou.
Continuaremos depois essa conversa.
