Talvez seja uma exceção entre as mulheres, mas não costumo ir ao shopping exceto por uma real necessidade: comprar algo de que preciso (normalmente em lojas já pré-definidas), comer ou, por apenas duas vezes no último um ano e meio, ir ao cinema. Nem sempre considero a jornada das compras tarefa das mais prazerosas, embora eventualmente necessária. Na última empreitada havia feito um cronograma: entraria pelo primeiro piso para ida a uma loja, depois duas no segundo piso e por último duas no terceiro para, enfim, retornar ao primeiro piso, pegar o carimbo que havia encomendado e então sair de lá o quanto antes.
Uma das lojas seria para comprar perfume pois o que usava acabara. Como já sabia exatamente qual levaria minha estada ali não demoraria mais do que quatro ou cinco minutos. Isso se não tivesse sido pega de surpresa por uma vendedora cativante e muito, muito, muito educada (e provavelmente bem-intencionada também). Ela logo me disse que havia notado que minha pele era oleosa, ao que tive que concordar. Sugeriu que eu testasse uma base que resolveria o problema. Hesitei um pouco, disse que estava com pressa, o que era verdade, mas logo me vi sentada em frente a um espelho enquanto ela retirava a base que eu usava para então apresentar seu produto.
Antes de começar a aplicar, ela me mostrou o frasco com a marca devidamente estampada. “Feche os olhos”, disse suavemente, e começou a deslizar o pincel. Aproveitei aqueles segundos e comecei a orar. Lembrei-me das muitas vezes em que eu ingenuamente achei que se pudesse usar marcas como aquela eu teria mais valor agregado. Pedi perdão a Deus por isso e O agradeci por me ajudar a entender que eu acreditava numa enorme mentira. Também agradeci a Deus por poder não comprar aquele produto. Isso mesmo: não fazer algo, especialmente não comprar algo que se possa, é libertador! Não me sentia mais obrigada a fazê-lo.
Pensei em quantas mulheres ainda andam frustradas simplesmente por não verem no espelho as mesmas estampas e etiquetas das moças bonitas, bem-
sucedidas e desejadas das vitrines e holofotes. E já fui, e como fui, uma dessas super frustradas! Aliás, vira e mexe ainda preciso dizer para mim mesma: “não se deixe enganar, Larissa. Você não precisa disso. Seu valor não está nisso”. Agradeci a Deus por estar naquela loja mas pedi também por misericórdia sobre mulheres cujo sonho e esforço é tão somente para viver com um mínimo de dignidade. Pedi a Ele que tivesse misericórdia de mim para que não me torne leviana com o uso dos recursos materiais que Ele tem me dado.
A moça, já quase fazendo as vezes de minha amiga (cuidado, vendedoras via de regra não são suas amigas; são vendedoras!), terminou o trabalho repetindo: “ficou ótima em você! Perfeita! Perfeita! ”. Olhei no espelho e, mais uma vez, concordei com ela. Havia ficado mesmo perfeito. Disse a ela que passaria o restante da tarde com o produto no rosto para verificar se minha pele de fato não ficaria oleosa. Já no caixa, pagando o perfume, ela tentou arremeter com a mesma suavidade: “tenho certeza que você vai querer comprar; e acabei de verificar, essa é a última”. Devolvi um sorriso discreto e disse que tudo bem. Lembrei que tinha uma base em casa quase cheia, de uma marca inclusive considerada muito boa. E disse em silêncio para mim mesma:
“Larissa, você não precisa disso; ao menos não agora”.
Paguei o perfume e deixei a loja rindo para mim mesma. Quem sabe um dia ainda use aquela a base. Não para provar nada para ninguém ou para mim mesma. Não para agregar valor. Quem sabe um dia eu queira e já não possa mais usar. E se assim o for, que Deus encontre em mim um coração grato e alegre Nele.
