Gosto de ouvir Djavan. É bem verdade que já gostei muito mais, confesso. Em tempos de viuvez, esse palavrão que ainda tenho que pronunciar por vezes, não é nada fácil ouvir alguém que fala de amor com tanta maestria e sensibilidade. O outro motivo pelo qual gosto de ouvi-lo é porque, como musicista amadora e bem amadora que sou, as melodias de Djavan inspiram a tentar melhores acordes.
Em seu último álbum, intitulado “Vidas para contar”, que por sinal está belíssimo, Djavan retrata na primeira faixa as agruras da vida do povo sertanejo. A música “Vida Nordestina” traz em sua letra o seguinte trecho:
“A fé do povo é o que há de seu
Sem ela tudo vai ser pior
Nem roça nem gado existem sem Deus”.
Desde que ouvi essa música pela primeira vez, e já faz alguns meses, fiquei pensando em quanta coisa de fato seria pior sem fé em Deus e quanto não existiria sem Ele. Não são apenas gado e roça que não existem sem Deus. No contexto da vida urbana, onde esses elementos não têm o mesmo sentido, diria que trabalho, saúde, emprego, segurança, nada existiria sem Deus. Não fosse a fé em um Deus vivo e bom, o luto seria muito pior. As intempéries do universo do trabalho também. As circunstâncias financeiras do mundo também seriam piores. A violência da nossa e de tantas outras cidades também seria por demais ainda mais grave.
No contexto da vida dura e seca do sertão, onde tanta coisa falta, a fé do povo ainda é o que a omissão política e os entraves naturais não conseguiram roubar. É a sua preciosidade, alento e esperança. Mas no nosso mundo de ipads, phones, pods, macs e tantos outros “is”, parece que fé virou artigo para os desafortunados que não têm onde buscar socorro. Acontece que os recursos tecnológicos passam; nossa capacidade de ter acesso a eles pode repentinamente mudar. O dinheiro que hoje existe na conta bancária amanhã pode não existir. O marido que se tem hoje, amanhã pode não se ter. Os filhos que são saudáveis hoje amanhã podem não ser mais.
Ouvindo Djavan descobri que nesse aspecto tenho algo em comum com o povo do sertão. Sem fé, os últimos dezoito meses da minha vida teriam sido muito piores. Sem fé, nada do que foi conquistado o teria sido. Nem paz nem qualquer ímpeto de sobrevivência existiriam sem Deus. Mas não se trata de qualquer fé ou qualquer Deus. Há que se ter fé naquele Deus que disse certa vez: “sem mim, nada vocês podem fazer” (João 15:5).
Djavan está certo. Nem roça, nem gado, nem eu nem você existiríamos sem Deus. E o que eu tenho de meu? Estou quase certa: fé naquele sem o qual eu nada posso fazer.
