18 de outubro de 2016
Aprendendo

Nódulo de tireóide

Não me recordo exatamente quanto tempo faz mas lembro-me do dia em que acompanhei meu então marido à sua primeira consulta à Endocrinologista. O motivo do atendimento havia sido um ganho de peso relativamente rápido que implicou em aumento nos níveis de glicemia e colesterol, somado à uma história familiar não desprezível de doenças cardiovasculares. Como cardiologista só pensava na possibilidade de ele ter um infarto miocárdico ainda muito novo. Tentei prevenir. Acontece que saímos da consulta com um diagnóstico a mais: havia também um pequeno nódulo na tireóide.

Fazendo jus à fama que os médicos têm de pensarem sempre no pior, em três segundos eu já tinha um prognóstico traçado: esse nódulo era maligno (em homens, a chance de nódulos tireoidianos serem malignos é maior que nas mulheres), talvez já tivesse metástases pelo corpo e talvez não haveria tempo hábil sequer para ele enfartar. Temi. Escondi a ansiedade, mas só descansei depois de termos o laudo da biópsia em mãos, que confirmava tratar-se de um nódulo benigno, não demandando mais do que uma ultrassonografia anualmente.

Lembro-me também, em época mais ou menos próxima, de acompanharmos a luta de uma moça jovem, bonita e saudável contra um tumor que repentinamente havia surgido em sua boca e que em aproximadamente um ano após o diagnóstico a matou. Lembro-me de Jorge frequentemente me perguntar em casa, a cada notícia que recebíamos dela, muito consternado: “será que ela vai ficar bem”? Respondia sempre a mesma coisa: “não sei”. Jorge morreu seis meses antes dela.

Eu julgava que o sobrepeso e seu colesterol alto eram uma ameaça à nossa expectativa de um futuro longo e feliz juntos. Temi o nódulo de tireóide até ter uma prova de que aquilo não o mataria. Mas nada do que parecia colocar em risco a nossa felicidade foi o que de fato a levou subitamente de mim. Foi um acidente muito inexplicado em um domingo de sol no litoral norte baiano.

É certo que vivemos cercados de ameaças, em todos os níveis. Se não é uma guerra civil, pode ser a violência na cidade. Se não é a crise econômica, pode ser uma doença. Se não é a possibilidade de um fracasso profissional, pode ser a ruína de um relacionamento. Mas estou quase certa de que a maior ameaça à sobrevivência de uma pessoa não é o tangível aos olhos nem escrito em laudos médicos. É a falta de esperança.  Posso reconhecer que os meus momentos de maior dor e angústia em tempos de luto, os quais foram também os momentos em que a minha própria vida esteve em risco, se deram quando eu havia perdido a esperança de ser feliz.

Talvez este seja um privilégio de quem sofre muito: agarrar-se a qualquer possibilidade de salvação e alívio, por mais pífia que pareça, com mais facilidade do que quem navega em águas tranquilas. Talvez por ter experimentado maus bocados, o apóstolo Paulo concluiu que: “Se é somente para esta vida que temos esperança em Cristo somos, de todos os homens, os mais dignos de compaixão” (I Coríntios 15:19).

Aquele nódulo na tireóide que parecia ser um monstro de boca aberta que engoliria meu futuro a qualquer momento não deveria ser nem de longe motivo de preocupação. O rapaz jovem com nada além de sobrepeso e colesterol pouco elevado morreu seis meses antes da moça consumida por um tumor tão agressivo. O que o nosso coração acolhe como ameaça muitas vezes nada mais é do que um revés da vida. Revezes podem passar. Falta de esperança, literalmente, mata.

Esperança há em Cristo. Para o aqui e agora, mas também para o porvir. E enquanto estivermos expostos aos revezes do aqui e agora, façamos como o chorão do profeta Jeremias: “quero trazer à memória o que me pode dar esperança” (Lamentações 2:21).

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