Meu último dia em Noronha começou com a tarefa de arranjar um plano B para o final da estada por lá. O plano A seria fazer um passeio à praia de Atalaia onde ficam, dentre outras coisas, a maior quantidade de filhotes de tubarão. Uma vez que este passeio exigia reserva prévia, a qual não foi feita com a devida antecedência, tive que me contentar com os seres marinhos visto no mergulho de dois dias antes.
Após o café da manhã, decidi então fazer uma corridinha. Ladeira abaixo, ladeira acima, sol ficando a pino, percorri cerca de 4Km. Voltei à pousada, tomei banho e segui novamente o mesmo trajeto, desta vez caminhando a passos lentos, até a praia do Porto. Lembrei que havia visto na primeira ida até lá anúncios de aluguel de pranchas de Stand Up Paddle.
Sentei-me solitária, requisitei a prancha e alguns minutos depois se me apresenta Fifio. Não me pergunte o seu verdadeiro nome, mas Fifio era o dono e locatário das pranchas. Após averiguar o meu nível de experiência no esporte e, a despeito da resposta, ainda assim consentir em alugar o equipamento, Fifio amarrou a prancha a um dos meus pés e me acompanhou até a água. Deu algumas instruções e pediu que eu tentasse colocar-me de pé. Executei a façanha de me levantar sem cair da prancha, embora oscilando bastante de um lado para o outro. Fifio deu mais orientações e interrompeu meu treino dizendo: “Relaxe; você está tensa! Eu vejo isso nos seus olhos! Você está de férias, Larissa. Relaxe”!
Fifio pediu que eu relaxasse enquanto propositadamente sacudia a prancha de um lado para o outro. Consegui me equilibrar novamente, mantendo-me sequinha em cima da água. E ele finalizou: “tá vendo? Lá no mar vai ter onda e vai balançar assim também. Viu como você não caiu?”. E me largou aos gritos de “reme, comece a remar”. Remei durante vários minutos. Tantos a ponto de gostar, descansar um pouco e voltar à água novamente para remar um pouco mais, sair dali, almoçar e começar a sentir saudades de um lugar tão encantador. Foi no dia seguinte a esta experiência que perguntei a Deus qual lição Ele gostaria que eu levasse dali, obtendo aquele simples “nenhuma” do qual já falei.
Misericordioso que é, Ele não parou nesta curta e objetiva resposta. Lembrou-me do dia em que fui por via terrestre à Baía do Sancho, considerada por muitos a praia mais bonita do Brasil, dizem alguns até do mundo. Lá deparei-me com uma família alemã composta pelo casal e dois filhos pequenos, o menor deles com cerca de dois anos de idade. Este se divertia correndo da areia até a água, dando meia volta rápida assim que seus pés tocavam a primeira onda. Neste vai e vem, apostou corrida com o pai, a mãe e o irmão maior, um por vez.
Lembrando-me dessa cena, o Senhor então me perguntou se eu achava que aquele senhor alemão havia levado seus filhos pequenos àquele lugar para ensinarlhes alguma lição. Será que aquele pai esperava das suas crianças alguma performance ou retribuição a tudo que lhes dava; algum malabarismo intelectual? Ou será que aquele homem tinha prazer em ver seu filho abrir uma gargalhada ao tocar os pés nas águas tropicais daquela ilha e isto lhe bastava?
Então a voz suave calou em meu coração lembrando-me que muito mais amoroso e bom do que aquele pai alemão ou qualquer outro na face da Terra é o Papai do Céu. Uma vez que Ele havia me permitido estar ali, realizando um sonho que eu tinha há alguns anos, era apenas pelo prazer que tem de me ver desfrutar daquilo que Ele, como pai, pode me proporcionar. Deus não esperava de mim nenhum desempenho espiritual ou emocional. Há coisas que Ele me proporciona apenas pelo prazer de me ver gargalhar.
Era como se Ele tomasse as palavras de Fifio e dissesse: “Lição, filha? Que nada, você está de férias! Relaxe”.
