Maria, mãe de Jesus. Falada, cantada, representada. Sem dúvidas, distinta – teve um privilégio que nenhuma outra mulher na face da terra teve ou terá. Recentemente, lendo o evangelho de Lucas me deparei com o relato da aparição do anjo Gabriel a esta mulher para anunciar-lhe que ela teria um filho. Interessante que a primeira palavra que o anjo lhe dirigiu foi “alegra-te”!
Antes mesmo de dizer o motivo, Deus estava dizendo, através do anjo, a Maria para ela se alegrar (Lucas 1:27). “Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo”. Profetas do antigo testamento, a exemplo de Isaías, já haviam previsto a existência dessa virgem que conceberia o Salvador. Mas quando Deus fala diretamente com ela, a carta de apresentação foi: alegre-se, agraciada! O Senhor está com você! Mas Maria, como muito provavelmente a maioria de nós, ao invés de se alegrar conforme o anjo havia sugerido, “perturbou-se muito e pôs-se a pensar no que significaria essa saudação” (Lucas 1:29). Honestamente, penso que Maria foi bem razoável. Quem de nós, recebendo a visita de um desconhecido nos mandando ter alegria porque somos agraciadas e Deus é conosco, antes de saber o motivo, colocaria um sorriso grande na boca e diria um simples “tudo bem”? Acho que Maria, assim como eu, queria explicações – ela ficou pensando (usou seu raciocínio) para entender o que acontecia.
Sou como Maria. Facilmente me perturbo, e muito, diante de palavras de Deus, por mais lindas que soem aos ouvidos, as quais eu não consigo entender. Uso meu raciocínio. Avalio as possibilidades reais. Faço contas. Invoco a lógica da dura existência humana, nua e crua, para saber se posso alegrar-me ou não. Diante do susto de Maria, Gabriel pacientemente acolhe sua angústia: “não tenha medo, Maria; você foi agraciada por Deus” (Lucas 1:30). E aqui começa então a detalhar àquela jovem moça o que estava por acontecer. Maria, embora talvez já um pouco menos assustada, ainda questiona: “como será isto? ” (Lucas 1:34). Maria pensava! Gabriel ainda com paciência novamente dá explicações, começando com uma afirmação poderosa: “descerá sobre ti o Espírito Santo” (Lucas 1:35) e mais adiante arremata a conversa: “porque para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas” (Lucas 1:37). Só então Maria se rende, já sem perturbação interior, sem medo e sem questionamentos. Ela simplesmente diz “aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra” (Lucas 1:37).
Não me lembro ao certo qual foi a primeira coisa que ouvi de Deus. Talvez não tenha sido “alegra-te”, embora me recorde com precisão como meu coração celebrou quando descobri o significado do meu nome: cheia de alegria! Mas me recordo bem de como, assim como Maria, perturbei-me muito diante de algumas coisas que ouvi de Deus. Lembro-me também de sentir medo e de questionar “como vai ser isto” em diversos momentos. E sei, pela misericórdia de Deus, que quando desce sobre nós o Espírito Santo coisas extraordinárias podem acontecer.
Quando o Senhor é conosco isso por si só já é motivo para nos alegrarmos. Quando achamos graça diante de Deus, Ele vem com poder e remove os nossos medos. Quando desce sobre nós o Espírito Santo, coisas impossíveis começam a ter lugar na experiência humana. E se depois de tudo isto formos capazes de dizer “aqui está a tua serva…” então quem sabe escreveremos novos Magnificats, o famoso canto de Maria após este encontro com o anjo de Deus.
Começaremos a cantar:
“Minha alma engradece ao Senhor
E o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador…”
