27 de março de 2018
Voz de mulher: recomeçar

Re-co-me-çar – pt. 1

Inspirada por uma das últimas leituras que fiz de John Stott, confesso não ter certeza se em seu livro Para Entender a Bíblia ou no Desafios da liderança cristã, decidi ler novamente o livro de Neemias. Para Stott, uma das maneiras de se iniciar a estudar a Bíblia é lendo os seus quatro grandes começos: Gênesis (começo do universo), Mateus (começo da vida e ministério terrenos de Jesus), Neemias (começo da reconstrução de Jerusalém) e, salvo engano, Apocalipse (seria o começo do fim).

 

Optei por reler Neemias, já que havia passado pelos outros três não faz muito tempo. Logo no primeiro capítulo, me dei conta de que tenho muito a aprender sobre o que significa e como se deve RE-CO-ME-ÇAR. Faço questão de escrever assim, em letras maiúsculas e com separação de sílabas, para dar ênfase no quanto este processo é importante, necessário e algo complexo, embora não necessariamente difícil. E pude perceber também que a história protagonizada por Neemias e descrita no livro que leva seu nome tem muito a nos ensinar.

 

A primeira coisa que aprendi é que boa parte dos recomeços começa por choro e lamento, às vezes por alguns dias. Neemias, um copeiro do palácio real do império Persa, o qual havia conquistado Israel e levado muitos de seus cidadãos cativos, depois de ter ouvido sobre o estado desolador no qual se encontrava sua terra natal disse: “…assentei-me, e chorei, e lamentei por alguns dias; e estive jejuando e orando perante o Deus dos céus”. (Neemias 1:4).

 

Caso tenha chamado a sua atenção o fato dele jejuar e orar, voltaremos especificamente a este tema no próximo estudo. Mas aqui queria dar ênfase sobre a reação de Neemias. Infelizmente nos nossos dias, sobretudo no meio cristão protestante, as lágrimas de lamento e tristeza têm sido muitas vezes condenadas a uma natureza quase maldita. Triunfalistas que somos, negamos a nossa humanidade (que neste aspecto nada tem de maligna) que nos leva a sentar, chorar e lamentar às vezes por vários dias, diante do que nos aflige. Creio que Neemias fez o que o profeta Jeremias sugere no livro das suas lamentações: ele derramou o coração como água diante de Deus.

 

Mas Neemias trouxe diante de Deus não apenas o seu pranto, mas também um claro reconhecimento de quem Ele é: “E disse: ah, Senhor, Deus dos céus, Deus grande e temível, que guardas a aliança e a misericórdia para com aqueles que te amam e guardam os teus mandamentos” (1:5). Neste início de oração, Neemias reconhece quem Deus é: grande, temível, e fiel àquilo que Ele diz (ou, dito de outra forma, fiel às alianças que Ele faz). Saiba, minha cara, que o (re)conhecimento que você faz de Deus define muito da maneira com a qual você irá empreender os seus
recomeços. Se você sabe quem Deus é e o quanto Ele é confiável, isso reduz em muito a sua susceptibilidade a uma das maiores ameaças aos recomeços e reconstruções da vida: o medo. Quem conhece Deus não teme!

 

Em seguida, após chorar e reconhecer quem Deus é, Neemias pede que o Senhor ouça à oração que ele está prestes a fazer em favor do seu povo: “Estejam atentos os teus ouvidos, e os teus olhos, abertos, para acudires à oração do teu servo, que hoje faço à tua presença, dia e noite, pelos filhos de Israel…” (vs 6a). Nada nos custa pedir a Deus que acuda à nossa oração. E a oração de Neemias, anunciada por uma petição – “pelos filhos de Israel” – na verdade continua com confissão.

 

Eis aqui um ponto delicado, porém muito importante. Não é sempre assim, mas muitas vezes aquilo que nos faz sentar, chorar e lamentar e ir buscar socorro em Deus, só aconteceu por conta de pecados cometidos. Preste bastante atenção: não é sempre assim! Às vezes sofremos porque viver nos deixa susceptíveis a isso. Mas às vezes sofremos porque pecamos. Quando é este o caso, não há como recomeçar e reconstruir de forma bem-sucedida, sem que antes haja confissão e arrependimento.

 

Nosso protagonista vai dizer “…e faço confissão pelos pecados dos filhos de Israel, os quais temos cometido contra ti; pois eu e a casa de meu pai temos pecado. Temos procedido de todo corruptamente contra ti…” (vs 6b e 7a).

 

Recomeçar, então, se inicia por sentar e chorar (faz-se necessário!), reconhecimento de quem Deus é – Deus GRANDE E TEMÍVEL – seguido de arrependimento e confissão de pecados, quando é este o caso.

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