Lembro de quando ele me cumprimentou no corredor do hospital pela primeira vez; fazia bem pouco tempo que eu estava trabalhando lá. Sorriso fácil, largo, com algumas unidades dentárias faltando, empurrando uma cadeira de rodas – não me lembro ao certo se com paciente sentada ou não. Eu, de jaleco e estetoscópio, provavelmente calçando saltinho ou sapatilha. Batom nude e bom perfume. Ele, com a farda marrom usada por todos os funcionários que exercem a mesma função. Eu ouço o quase grito feliz: “Bom dia, ‘Bença’!!! Eu devolvo um bom dia provavelmente não tão entusiasmado quanto o dele, mas também gentil, tentando me lembrar de qual serviço anterior o conhecia pois, para me cumprimentar daquele jeito, devia me conhecer de algum outro hospital. Não consegui recordar.
Havia acabado de conhecer “Bença”. Não sei o seu nome verdadeiro pois lá no trabalho ele é conhecido apenas pelo apelido carinho. É assim que ele se dirige a todos: médicos, equipe de enfermagem, funcionários da limpeza, pacientes, acompanhantes. Bença abençoa, acho que até sem querer, o dia de todo mundo. Lembro-me de ter chegado um dia para trabalhar não tão animada quanto gostaria. Enquanto esperava o elevador, lá vinha ele andando célere no sentido oposto do corredor. Ao passar por mim, como de praxe, deseja que Deus abençoe meu dia, sorrindo. Sempre, sempre sorrindo!
Ontem, na primeira metade da manhã, me deparei com uma mensagem no grupo do Corpo Clínico deste serviço. Havia uma lista cujo título era “Geladeira para Bença”. Cada um que colocava o nome se dispunha a contribuir com cinquenta reais. E os comprovantes de transferência logo começaram a aparecer, um a um. Meu nome foi o de número trinta e cinco da lista, mas bem rápido já havia mais de sessenta nomes. Alguém perguntou: “quem é Bença”? Algumas das respostas que surgiram: “Impressionante como Bença é uma unanimidade! Ele é muito gente boa e merece”. Outra disse: “ele é uma pessoa maravilhosa”. E uma outra complementou: “e único!”.
Há algumas semanas, talvez mais de um mês, por conta de uma enchente, Bença perdeu não só a geladeira, mas boa parte do que tinha em casa. Duas colegas se mobilizaram para reunir outros médicos e levantar o necessário para a aquisição. Ao final do dia, a geladeira já tinha sido comprada e o saldo residual de R$ 2.173,00 (dois mil cento e setenta e três reais) foi transferido para a conta dele para que administre como julgar melhor na aquisição de outros móveis.
Bença é pobre. Talvez não tenha concluído o ensino médio, não sei. Mas Bença também é filho de um Deus bondoso, poderoso, que provê os seus. O Deus de Bença enche a terra com Sua bondade (Salmo 119:64); também chama à existência as coisas que não são como se elas já fossem (Romanos 4:17). Não fomos nós que demos a geladeira nem o valor que ele recebeu. Foi o Senhor que, como diz a canção, derrama chuva de bençãos, chuvas de bençãos dos céus. O Deus que cuida de pobres e necessitados, sejam esta pobreza e necessidade de bolso ou de alma.
“Eu sou pobre e necessitado, porém o Senhor cuida de mim; tu és o meu amparo e o meu libertador; não te detenhas, ó Deus meu”! (Salmo 40:17).
