Foi no ano de dois mil e seis, em um congresso missionário para jovens universitários, que ouvi pela primeira vez – e foi da boca do Pastor Ziel Machado – a expressão “o ‘problema’ da oração é que Deus responde”. Eu diria que há uma extensão nesse maravilhoso problema das respostas de Deus que é o fato dele responder com criatividade. Gosto muito do verso bíblico que diz que a graça de Deus é multiforme (I Pedro 4:10) e certamente sua sabedoria também o é.
E foi no ano de 2016 que decidi contratar a prestação de um serviço regular em uma dada empresa. Depois de um curto período de contato com alguns dos profissionais que poderiam prestá-lo, escolhi a pessoa (a partir de agora designada como Pessoa) que ao meu ver preenchia os pré-requisitos de um profissional qualificado para aquele serviço. Expostas as condições, fechei o contrato – aqui já ciente do fato de Pessoa ser homossexual, o que obviamente não era um óbice.
Passado algum tempo, comecei a ficar um pouco inquieta com o fato de Pessoa não saber que eu sou cristã, ou crente mesmo, como queiram. Me sentia desconfortável em estar com Pessoa de forma regular, há alguns poucos meses, e ela não saber quem é o grande amor da minha vida (falo de Papai do Céu). Deixo claro que essa minha inquietação não se devia ao fato de Pessoa ser homossexual, mas simplesmente por entender que todos, inclusive eu, precisam conhecer o amor de Deus. Eu até já me apresentei algumas vezes no local da prestação de serviço vestida com camisas onde estava escrito “Deus me ama” ou “Seja Sal e Luz”, mas Pessoa não estava nem aí.
Até que algumas semanas atrás, ao chegar em casa após encontrar-me com Pessoa na empresa para a prestação do serviço me olhei no espelho e vi a frase Seja Sal e Luz estampada na minha roupa. Dei um sorriso leve e enquanto tirava a camisa pensei comigo mesma (eu juro que só pensei, eu não estava orando!): “é Deus, arranja uma coisa melhor porque essa história de camisetinha não está funcionando”! Mas, sabe como Deus é, meu pensamento virou uma oração.
Poucos dias depois, lá estava eu aguardando Pessoa, que chegou visivelmente abatida e angustiada, a ponto de seu semblante chamar a atenção de alguns colegas de trabalho. Pessoa me cumprimentou e após algumas poucas palavras meio desanimadas me informou que pegaria carona comigo para voltar para casa pois estava sem carro. Sabida e esperta que sou (já, já você verá que Deus é mil vezes mais), eu comecei a articular tudo. Armei o circo todo na minha cabeça e pensei que seria a oportunidade perfeita. Enquanto estivéssemos no carro eu daria um jeito, na minha cabeça bem indireto, de abordar Pessoa sobre meu relacionamento com Jesus.
Mas sem muitas delongas Pessoa começou a abrir o coração. Falou do quanto estava triste, que não tinha conseguido se alimentar naquele dia e tudo isso por conta de problemas no seu relacionamento. Eu de novo só pensei em o porquê de Pessoa ter decidido falar de problemas de relacionamento logo comigo! Pessoa continuou até que me olhou e disse: “Oh, Larissa, eu vou assumir logo para você…” e explicitou que ela estava falando de um relacionamento homossexual.
Naquele exato momento eu me lembrei do meu pensamento em casa cerca de três dias antes, quando eu pedi a Deus que me ajudasse a mostrar o amor Dele para com aquela pessoa. Era muito estranho Pessoa se sentir à vontade (ou será que foi só angústia mesmo?) para me dizer algo tão íntimo e desafiador de ser dito, já que nosso relacionamento não era de amizade, mas meramente profissional. Mas ali Deus estava respondendo àquele pensamento/oração de poucos dias antes no segredo do meu quarto.
Minha primeira reação, quase que impensada, foi dizer a Pessoa uma outra frase que ouvi do mesmo Ziel Machado no mesmo congresso em 2006, quando ele nos relatou que um jovem de sua igreja o havia procurado dizendo ser homossexual, mas que não praticava o homossexualismo por amor a Cristo. Pessoa levou um susto e finalmente descobriu que eu era “crente”. Fiquei triste porque logo depois veio a pergunta, da parte de Pessoa, com um olhar meio assustado, se eu iria desfazer o contrato por causa disso. Imediatamente disse que não, mesmo porque eu já sabia.
Aqui Pessoa quase caiu de costas e continuamos a conversa entre desabafos e risos até Pessoa me perguntar se eu era casada. A carona de fato aconteceu, mas o tema do caminho de volta para casa foi a minha resposta a Pessoa de como meu casamento terminou. Ela se solidarizou à minha dor, me desejou superação a tudo isso e me agradeceu por não tê-la rejeitado, descendo então do carro.
Fiquei alguns dias pensando nessa história tão inusitada e ao mesmo tempo encantada sobre como Deus respondeu de forma tão linda e criativa ao meu pedido de ajuda para demonstrar o amor Dele a alguém. Lembremos que a maravilha da oração é que Deus responde, e muitas vezes o faz de maneiras que não perpassam a nossa limitada imaginação. Eu construí uma carona armada e Deus me deu uma declaração tão pessoal. Você pode estar pedindo um marido, e Deus antes vai te dar mais responsabilidades; ou um emprego novo, e Deus vai fechar o cerco contra você no atual para que você, antes de crescer profissionalmente, seja mais humilde. Você pode pedir um filho e Deus pode te dar mais Dele mesmo antes do filho.
Não sei. Só estou fazendo especulações. Afinal, não temos resposta para tudo. Mas uma coisa aprendi direitinho: ao orar (aliás, até ao pensar), cuidado! Deus responde…e é criativo!
