11 de abril de 2017
Reverdescendo

Deus sabe o que faz

Pare um pouco e pense com cuidado. Na sua opinião, a frase “Deus sabe o que faz” deveria terminar com um ponto de interrogação ou um ponto de exclamação? Deveríamos interrogar “Deus sabe o que faz”? Ou deveríamos entusiasticamente afirmar que “Deus sabe o que faz”!?

Se alguém me fizesse essa pergunta antes de quinze de fevereiro de 2015 eu certamente colocaria não apenas um, mas cinco pontos de exclamação ao final e ratificaria com um sorriso no rosto que sim, Ele sabe o que faz! Mas depois da referida data, os pontos de exclamação foram um a um caindo e houve dúvida em muitos momentos, no íntimo do meu coração, se Deus de fato sabia o que estava fazendo.

Nada como o sofrimento para gerar dúvida em nosso coração se aquele que detém domínio sobre tudo, conhece todas as coisas e tem poder para interferir em todo o curso da existência é mesmo tão sábio e bondoso assim. Parece que quando a tragédia bate à nossa porta nós começamos a duvidar da integridade da soberania de Deus. Mas, como bem diz o Pr. Ed René Kivitz, as minhas dúvidas não me impedem de crer.

O problema não é questionar Deus diante do sofrimento. O problema não é perguntar para Ele por muitas vezes repetidas o porquê de algo ruim ter nos sucedido. Abro aqui parênteses para dizer que, pessoalmente, nunca fui muito fã dessa história de não perguntar a Deus o porquê, mas sim o para quê – pergunto tudo, inclusive porque. Aliás, Jó fez isso, e apesar de não ter dado a ousadia de responde-lo em todas as suas indagações, Deus testificou ser ele um homem íntegro, mesmo depois de todos os questionamentos que fez durante seu tormento.

A questão é conseguir, a despeito das dúvidas que nos sobrevêm com o impacto da tragédia, não apenas continuar crendo em Deus, mas confiando em sua bondade. Vou explicar melhor usando uma frase do Pr. Ronaldo Lidório que muito me impactou há alguns dias: nenhuma tragédia é maior do que a bondade do Senhor. Você pode chorar, gritar, esmurrar a parede perguntando a Deus onde Ele estava quando aquilo te acontecia; Ele aguenta essas coisas. Como o salmista conseguiu perceber, Deus “sabe do que somos formados; lembra-se que somos pó” (Salmo 103:14).

A grande questão é continuar confiando que Ele não deixou de ser bom apesar do mundo desabar sobre sua cabeça. Devo admitir que há alguns meses, não muitos, se alguém olhasse para mim com cara de santo, sorrindo, e repetisse essa frase do Pr. Ronaldo meu primeiro desejo seria dar um murro e retrucar perguntando se a pessoa sabia o significado de tragédia.

Mas hoje posso não apenas experimentar mas reconhecer que, de fato, nenhuma tragédia é maior do que a bondade do Senhor. Ou, como diz a música do Paulo César Baruk, Ele continua sendo bom, Ele continua sendo Deus. E ainda, como diz o salmista, bondade e misericórdia têm me seguido todos os dias da minha vida, o que inclui os dias maus e tristes.

Naturalmente, nem sempre o resultado dessa tão grande bondade divina é notável de forma clara e imediata. Poderíamos tomar emprestada a expressão do apóstolo

Paulo “agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho…” (I Coríntios 13:12). Ver a bondade de Deus em meio ao sofrimento é muitas vezes como ver algo de forma nublada, um reflexo obscuro. Mas ela está lá. Talvez leve algum tempo para crermos e conseguirmos enxergar. Para algumas coisas, quem sabe, isso só será possível na eternidade.

Porém, a cada novo dia, diante da imprevisibilidade da dor e da tragédia, podemos dizer, como o fez Davi enquanto estava preso em Gate, sob domínio dos filisteus:

“quando meu coração temer, confiarei em Ti” (Salmo 56:3). Ainda que não esteja claro que o que Deus está fazendo é mesmo bom; ainda que não seja possível discernir isso de forma cristalina, que possamos confiar em sua bondade.

Portanto, em minha opinião, nem interrogação nem exclamação. A frase deve terminar com reticências. Posso não ter certeza hoje, mas um dia terei.

Deus sabe o que faz…

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