Na Cardiologia, costumamos orientar pacientes portadores de insuficiência cardíaca avançada que estes podem consumir no máximo 2g de sal por dia. É natural que a pergunta sobre como medir dois gramas de sal logo venha, já que dificilmente alguém disporá de uma balança com tal precisão. A resposta que quase todo médico já tem na ponta da língua é: a quantidade que cabe no bocal de uma caneta Bic®. Pronto, aí fica fácil medir. Já ouvi dizer de famílias que separam uma tampa dessas canetas só para isso e vão usando aquela quantidade de sal ao longo do dia.
Para outras coisas, entretanto, não é tão simples encontrar a medida certa. Vou compartilhar com você algumas das quais me parecem especialmente desafiadoras neste aspecto. Veja o texto de Eclesiastes 7: 15-18: “Tudo isto vi nos dias da minha vaidade: há justo que perece na sua justiça, e há ímpio que prolonga os seus dias na sua maldade.
Não sejas demasiadamente justo, nem demasiadamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo? Não sejas demasiadamente perverso, nem sejas tolo; por que morrerias antes do teu tempo? Bom é que retenhas isso, e que também daquilo não retires a tua mão; porque quem teme a Deus escapa de tudo isso”.
O que é ser demasiadamente justo? Ou melhor, quanto é ser demasiadamente justo? E demasiadamente sábio ou perverso? Como quantificar isso? Existe alguma medida de perversidade que parece boa e alguma medida de justiça e sabedoria que parece desarranjar mais do que melhorar?
Penso muito sobre essa quantificação, por assim dizer, especialmente aplicada ao mundo do trabalho. A Bíblia valoriza (e muito) o trabalho. O apóstolo Paulo, por exemplo, vai dizer aos Tessalonicenses em sua segunda carta a eles: “Porque, quando ainda convosco, vos ordenamos isto: se alguém não quer trabalhar, também não coma” (2 Ts 3:10). Voltando ao livro de Eclesiastes, Salomão vai dizer “tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças” (Ec 9:10). Ou seja, trabalhar é necessário e importante. Mas a mesma Bíblia também traz no Salmo 127 que é “inútil levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados Ele o dá” (ou seja, dá o pão, o sustento) “enquanto dormem” (Salmo 126: 2). Ora, é para trabalhar já que se precisa comer ou é para dormir e deixar tudo por conta de Deus? A melhor resposta me parece ser que devese fazer as duas coisas: trabalhar o máximo que se pode, mas também descansar na provisão do Senhor.
Creio que devemos trabalhar até o ponto em que isso não nos prive de escolher a melhor parte. Lembra de Marta e Maria, as duas irmãs de Lázaro e amigas de Jesus? A casa devia ter ao menos trezes homens a serem alimentados (Jesus, seus doze discípulos e Lázaro). Marta estava louca na cozinha tentando fazer o melhor. Mas Jesus disse que a irmã, Maria, que estava aos seus pés ouvindo-o, era quem tinha escolhido a melhor parte. Trabalhe, mas não deixe que sua atividade lhe roube o seu tempo de estar aos pés de Jesus.
Trabalhe também até o ponto em que isso não faça com que você coloque na sua profissão (vale também para as atividades domésticas) o seu coração. Lembre-se do alerta de Jesus: onde estiver o seu tesouro, ali vai estar o seu coração (Mateus 6:21). Se o seu trabalho se tornar o seu tesouro, você passará a viver em função dele, porque nós vivemos em função daquilo que domina os nossos corações.
Mas porque então esse versículo do Salmo 126 existe? Porque você pode trabalhar muito (quer comer, então mãos à obra!) e trabalhar muito bem (fazer conforme todas as suas forças), mas se o Senhor não for o seu provedor, tudo não vai passar de cansaço e fadiga, um eterno ciclo vicioso de colocar comida na mesa e pagar impostos.
Sobre os outros “demasiadamente”, vão ficar para as cenas dos próximos capítulos.
