12 de março de 2018
Voz de mulher

Medida certa – pt.2

Na última semana, quando saia do estacionamento onde costumo colocar o carro às tardes de quarta e manhãs de quinta no local em que trabalho, entreguei ao funcionário uma nota de dois reais e mais dois reais em moedas, estas dadas como troco do pagamento do dia anterior. O valor do estacionamento é três reais, mas no dia anterior (na quarta) eu achei que tivesse entregue quatro reais e que, portanto, só deveria receber um real de troco. Disse ao funcionário que achava que o colega dele havia se equivocado e me dado um real a mais e que por isso eu estava devolvendo esse valor excedente das moedas. No fundo, eu não tinha certeza se o funcionário havia se equivocado. Mas, na dúvida, preferi não ficar com algo que talvez não fosse meu. Só depois me ocorreu que havia pago cinco reais no dia anterior, e que o troco correto seriam mesmo aqueles dois reais.

Fui assim demasiadamente justa? Resposta simples: não! Creio que não era de situações como esta que o autor de Eclesiastes falava ao considerar sobre os riscos de ser demasiadamente justo. Precisamos primeiro entender o contexto em que isso foi escrito. Para os estudiosos que acreditam ser Salomão este autor, o livro deve ter sido escrito no final de sua vida. Neste momento, Salomão era um homem mais maduro e também, ao que parece, mais pessimista quanto à realidade nua e crua. Ele provavelmente havia visto de (quase) tudo e não tinha como negar, portanto, que a vida é sim muitas vezes injusta: o mocinho muitas vezes sofre muito e o vilão se dá bem.  É uma sensação parecida com a que o salmista expressou no Salmo 73. Asafe, o autor deste Salmo, vai dizer “eis que são estes os ímpios; e, sempre tranquilos, aumentam suas riquezas. Com efeito, inutilmente conservei puro o coração e lavei as mãos na inocência. Pois de contínuo sou afligido…” (Salmo 73: 12-14a). Asafe era outro que sabia que ser puro e limpo nem sempre significava se dar bem. Ainda vai mais adiante: “Em só refletir para compreender isso, achei mui pesada tarefa para mim” (vs 16).

Colocando lado a lado esses dois textos, parece-me que o ensino é de que, se nos considerarmos justas demais (o verbo considerar aqui é proposital; podemos até nos considerar muito justas e corretas, mas provavelmente de fato nunca seremos o tanto que devemos ser), pode-se chegar a um ponto em que julgamos o sofrimento inadequado e impróprio para nós. E é tão difícil compreender e aceitar estes fatos que acontece o expresso por Salomão: destruímo-nos a nós mesmas; a tarefa fica pesada, como disse Asafe no Salmo. Anderson Paz, no site www.conexaoeclesia.com.br, vai dizer que “o exageradamente justo não é aquele que exige justiça de si mesmo, mas sim o que exige ser tratado conforme sua própria justiça”. Alguns usam Jó como exemplo disso. Um homem que segundo depoimento de ninguém menos que o próprio Deus era íntegro e reto a ponto de não haver na terra semelhante a ele. Mas na hora do aperto, Jó reivindicou de Deus não ser merecedor de tamanho sofrimento.

Talvez algo como “sou justo demais para sofrer assim”.

A Vida, minha cara, não necessariamente irá tratá-la em consonância com o tamanho da sua integridade. Ela não necessariamente irá tornar-se mais fácil à medida que você aperfeiçoa o seu caráter. Então não queira correr o risco de se auto destruir ao criar expectativas assim. Seja justa e seja sábia o máximo que conseguir.

Aliás, o Pregador atesta em Eclesiastes 7 que “a sabedoria protege como protege o dinheiro; mas o proveito da sabedoria é que ela dá vida ao seu possuidor” (Ec 7:12). Porém não acredite que isso é moeda de troca para uma existência de sombra e água fresca o tempo todo.

Lembremos também das palavras de Jesus em Mateus 5:20. Ele já havia pregado o famoso Sermão do Monte, fala com dos discípulos sobre como eles deveriam ser importantes para o mundo – ser sal e luz, adverte-os que toda a Lei (as Escrituras) irão se cumprir e no final alerta: “se a vossa justiça não exceder, EM MUITO, a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus”.

Seja muito justa (íntegra). Seja muito correta. Seja muito sábia. O máximo que você puder. Deixe o resto com Aquele que é “a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre” (Salmo 73:26). Mesmo depois de tanta angústia por ver que os ímpios se davam bem, a conclusão a que Asafe chega sobre Deus é essa aí.

Cadastre-se e receba novidades.