27 de agosto de 2016
Esperança

Mude o mundo

Na idade da inocência, como alguns ainda insistem em descrever a infância, eu vislumbrava a possibilidade de fazer algo tão relevante que poderia impactar não apenas a minha geração, mas até toda a humanidade. Na verdade, eu vislumbrava a possibilidade de ter meu nome nos livros de História. Bastou crescer apenas um pouquinho para perceber que isso seria uma missão, digamos, impossível. Certamente eu não tinha genialidade suficiente para nenhuma grande descoberta nem habilidades suficientes para destacar-me em qualquer coisa. Como disse outro dia uma colega enquanto trabalhávamos e falávamos de Medicina e de esportes, “eu nunca fui muito boa em nada; sempre fui mediana em tudo”. Tive que rir e concordar com ela que essa era também minha realidade.

Mas há alguns dias, enquanto me arrumava no vestiário da academia para encontrarme com uma amiga em seguida, me vi interpelada pela moça que acabara de sair do box ao lado sobre o frio do local. Animada pela disposição dela em conversar, fiz uma pergunta retórica sobre sua especialidade e ela, surpresa, me interrogou de onde nos conhecíamos. Foi quando a lembrei que há cerca de dois anos ela teve uma pessoa próxima internada em uma das UTIs onde trabalho e, por isso, lembrava-me dela. Ela então me rememorou o nome e parentesco da moça que havia sido paciente e me disse que recentemente haviam se encontrado. E completou, para minha surpresa, que aquela mulher que esteve internada lembrava de uma médica (e me descreveu, segundo ela) que “era doce e perguntou se eu queria comer”, quando já se encontrava melhor do seu estado de saúde e lúcida.

Saltei de alegria por dentro. Não por ser tida como doce, pois definitivamente não o sou, mas por, de alguma forma, ter feito bem a uma pessoa que poderia ser tida como apenas mais uma das pacientes da UTI. Ou, em última instância, alguém que poderia ser tido como mais um dos meus objetos de trabalho. O apelido dela é Bia. Bia esteve muito grave, com chances muito reais de morrer. Mas ao melhorar e, prestes a ter alta daquele ambiente tão inóspito, ela guardou para si uma pergunta corriqueira e piegas. Mas aquele “você quer comer?” fez diferença na vida de Bia. Despedi-me dela e deixei a academia um pouco mais leve (aquele não tinha sido dos meus melhores dias). Senti uma sensação de dever cumprido. Bia hoje está bem e lembra-se de mim.

Naturalmente, isso não vai fazer o meu nome ir para os livros de história. Mas para o mundo de Bia e para o meu mundo de pessoas entre a vida e a morte, alguma coisa, ainda que simples e aparentemente irrelevante, fez uma diferença muito positiva. Me senti como alguém que de fato mudou o mundo; aquele pequeno mundo no qual estou circunscrita. Desde então, venho com mais frequência me policiando e pedindo a Deus ajuda para ser relevante na vida das pessoas com as quais convivo, seja de forma regular ou não.

Não tenho mais a inocência (ou seria melhor dizer pretensão?) de querer ser um nome na página de algum livro. Mas se eu puder contribuir para mudar –  e tem que ser para melhor – a história de alguém que está ou já esteve nem que seja nos dez metros quadrados de onde eu estou, então a minha existência terá valido a pena.

Quantas Bias ao nosso redor e muitas vezes gostaríamos de ser lembradas pela rainha da Inglaterra? Quantas Bias ao nosso redor e queríamos que Kate Middleton, quase nora da rainha, fosse nossa melhor amiga? Quantas Bias ao nosso redor e gostaríamos de ter o telefone de Tia Eron na agenda do celular? Não precisa nem bater recordes mundiais ou descobrir a pólvora. Mudar o mundo às vezes é uma questão de tão somente perguntar: você quer comer?

Cadastre-se e receba novidades.