É bastante provável que quando do surgimento do ditado “antes só do que mal acompanhada”, a intenção era tratar da companhia conjugal: é melhor lidar com as agruras da solidão do que com aquelas de um companheiro inadequado. É verdade também que a afirmação de não ser bom que o homem esteja só veio de Deus (Gênesis 2:18) e não do próprio homem. Penso que justamente por isso, de forma geral, a maioria das pessoas, especialmente nós mulheres, deseja uma companhia para a vida.
Mas ela mesma, a vida, às vezes não dá esse companheiro. Algumas mulheres nunca chegam a tê-lo. Outras o têm por um tempo e depois o perdem – não preciso explicar os diversos motivos. Nesses casos, passa então a ser bom estar só? Creio que não. Então há que se garimpar a todo custo e com menos exigências um novo amor?
Pessoalmente, também acredito que não.
Nem toda solidão é resolvida única e exclusivamente na relação conjugal. Tanto sim que casamento não significa fim de amizades. Aliás, há amizades que se tornam melhores, mais maduras, algumas até mais necessárias, depois do casamento. A
Bíblia aliás fala bastante de amizade. No antigo testamento: “…descendente de Abraão, meu amigo” (Isaías 41:8); “não abandones o teu amigo, nem o amigo de teu pai” (Provérbios 27:10); “em todo o tempo ama o amigo e na angústia se faz o irmão”
(Prov. 17:17) e uma que pessoalmente gosto bastante: “Como o ferro com ferro se afia, assim um amigo a outro amigo” (Prov. 27: 17).
No novo testamento há o relato de quatro homens, provavelmente amigos, que tiraram o telhado de uma casa e baixaram um paralítico pelo centro da sala para que este pudesse ter acesso a Jesus e ser curado (relato dos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas). Percebe então que se você não tiver um crush (só pra eu fazer as vezes de moderninha), isso não é motivo para você andar sozinha? Aliás, um dos versículos da Bíblia que tenho guardado desde a adolescência dada a minha frequente inclinação em isolar-me é Provérbios 18:1: “o que se isola busca seu próprio interesse e insurgese contra a verdadeira sabedoria”. Isolar-se o tempo todo, minha cara, não é sábio!
Reitero: o tempo todo; o mesmo Salomão que escreveu isso também registrou que há tempo de “afastar-se de abraçar” (Eclesiastes 3:5).
Mas não tenha apenas amigas. Também não se preocupe em ter muitas. Tenha boas amigas. E como definir o que é uma amizade boa? Poderia citar inúmeros critérios mas vou me deter aqui a apenas um: a qualidade dos conselhos que você recebe. Na Bíblia há um exemplo bem interessante disso: no primeiro livro dos reis, capítulo 12, conta-se a história de Roboão, que era filho de Salomão, quando assumiu o reinado no lugar do pai. Uma parte da população trouxe uma demanda a ele. Roboão começou bem: “Tomou o rei Roboão conselho com os homens idosos que estiveram na presença de Salomão, seu pai, quando este ainda vivia..” (1 Rs 12:6). Até aqui ele não podia ter tomado decisão melhor logo no início do seu reinado: pedir conselho a gente com experiência no assunto.
Porém ele terminou mal: “Porém ele desprezou o conselho que os anciãos lhe tinham dado e tomou conselho com os jovens que haviam crescido com ele e o serviam”. O resultado, leia depois o capítulo, foi a população se rebelar contra a casa de Davi e a nação de Israel ficou dividida. Roboão trocou a experiência pela conveniência. Trocou o círculo de maturidade pra ir pra sua galera.
Não é bom que o ser humano esteja só. Mas também não é bom estar mal acompanhada. E não precisa ser necessariamente um relacionamento conjugal. Se isso ainda não aconteceu ou por qualquer motivo se desfez, lembre-se das amigas!
Concluo lembrando as palavras muito acertadas de Tom Jobim: “fundamental é mesmo o amor – não necessariamente de um homem* – é impossível ser feliz sozinho”.
