16 de abril de 2016
Sobrevivendo

O caos e a asa delta

“No princípio Deus criou os céus e a terra. Era a terra sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. Disse Deus: ‘Haja luz’, e houve luz.” (Gênesis 1:1-3)

A Bíblia começa assim: do começo. Mas eu vou partir do final. Falo do final da última viagem que fiz. Foi ao Rio de Janeiro, onde permaneci por quatro dias. Inicialmente, seria uma viagem feita sozinha, logo após uma prova de título, que serviria para usar alguns pontos de programa de milhagem de uma companhia aérea que estavam por vencer, aproveitando para comemorar uma possível vitória na prova. Poderia ter escolhido outro destino, mas ir para o Rio atendia à exata quantidade de milhas que em poucos meses expirariam em um destino agradável.

A prova de título não aconteceu e a viagem não foi realizada sozinha pois meio que de última hora ganhei a companhia de uma amiga que gentilmente decidiu seguirme em uma jornada a princípio solitária. Mas no último dia acabei por minha conta mesmo, dadas as diferenças nos nossos horários de volta para Salvador. Foi aí que decidi firmemente fazer algo que já planejava desde que pensei na possibilidade da viagem: voar de asa delta!

As mais medrosas não me tenham como corajosa. Talvez altura estivesse em quarto lugar naquele meu ranking dos medos. A uma amiga que brincou comigo, ao ver a foto da montanha de onde eu voaria, que só teria coragem de fazer o mesmo com uma arma na cabeça, respondi que quando a vida te dá uma porção de adrenalina inimaginável (viuvez aos 29 anos considerando sobretudo de quem fiquei viúva), o melhor a fazer seria dobrar a adrenalina! O psicólogo que me acompanha interpretou que no fundo eu buscava uma emoção positiva que talvez tivesse uma intensidade próxima daquilo que a palavra “emoção” passou a significar pra mim: basicamente, dor e sofrimento.

Ignorando a motivação, fato é que subi a montanha. Lá de cima, ao olhar o abismo enorme que me separaria da firmeza do chão, quase desisti. Mas resoluta, coloquei os equipamentos e lá fomos eu e Zero (meu piloto, como eles costumam chamar) em direção à rampa de decolagem. Voei e voei alto. Zero estava certo quando me disse enquanto eu fingia não ter medo de fazer aquilo, que no ar era tudo calmo e sereno. Com a mesma fração de segundos com a qual perdi o chão também experimentei uma sensação enorme de prazer e liberdade. Fiz até um 360 graus no ar, não importa o que isso signifique, nos poucos minutos em que ele me permitiu pilotar o equipamento. Aterrissamos bem e fiquei ainda alguns minutos trêmula até entrar no táxi e voltar ao hotel.

Nos minutos que se seguiram, já em terra firme, fiquei a pensar em quantos medos eu tinha que foram superados. Pude enumerar quantas coisas que pareciam impossíveis há um ano e dois meses foram realizadas. Quantas atitudes ousadas eu fui capaz de ter e quantas decisões que exigiam coragem e determinação foram tomadas. Minha vida havia se tornado um caos que abriu portas para caminhos novos. E tudo isso aconteceu graças à bondade, misericórdia e poder de Deus, aquele poder que a Bíblia diz se aperfeiçoar na nossa fraqueza (2 Coríntios 12:9).

E aqui eu volto a Gênesis. A Bíblia diz que no princípio a terra era sem forma e vazia. E não é assim que nos sentimos muitas vezes? Absolutamente sem nenhuma forma e completamente vazias? Pois este talvez seja o cenário ideal para a voz do Todo-Poderoso bradar “Haja!”. O que era caos ganha vida e beleza. E se no meio do (seu) caos ele gritar “haja”, pode ter certeza: haverá!

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