1 de janeiro de 2016
Sobrevivendo

Revisitações pt. 3

(Sugiro que antes, durante ou após a leitura desse texto, você ouça a música

“Morada”, do CD Preto no Branco. Segue o link: http://youtu.be/Lfqqbbqbtp8)

 

Creio estar bem sedimentado no senso comum, nos tratados de Psicologia psicológicos e Neurologia, que vivências fortes e positivas produzem o que chamam tecnicamente de reforço. Nada mais é do que o famoso gostinho de quero mais, quando somos impulsionados a experimentar emoções semelhantes novamente. Não é de se espantar que dada a emoção perene e amarga em boa parte do tempo que a vida se tornou para mim desde 15 de Fevereiro de 2015 e a bela aventura, como já descreveram, do quadriciclo, eu estivesse não necessariamente desejosa, mas ao menos disposta ao “quero mais”.

Pois bem, amanheceu o dia seguinte, novamente com uma chuva leve como nos demais. Seria o meu último dia inteiro de permanência no local e, dadas as condições climáticas, resolvi que ficaria na pousada para seguir com a leitura já bem atrasada de Ouça o espírito, ouça o mundo, de John Stott. Não seria uma opção ruim nem entediante, já que leitura fascina e o local era de uma beleza e silêncio convidativos.

Porém teimoso, o sol raiou mais forte no meio da manhã e eu me lembrei da proposta de um dos rapazes da pousada no dia anterior. Havia um passeio de barco muito interessante na região. Meu único problema é que todos os hóspedes que intentavam fazer o passeio já haviam saído e, caso eu decidisse seguir o roteiro, ainda estava disponível uma embarcação, no caso uma lancha rápida, só para mim. Obviamente, o custo dessa saidinha de lancha também seria só meu!

Pensei (não muito, confesso) e fechei negócio! Em poucos minutos lá ia montada em um quadriciclo, agora como carona, trilha adentro na direção oposta à que havia percorrido no dia anterior. Em pouco mais de 15 minutos chegamos ao Porto Jobel, onde me aguardavam Queen Laura, esse era o nome da minha lancha, e Altimar, meu marinheiro. Permitam-me chamá-los de minha e meu. Abro aqui parênteses para dizer que toda mulher deveria ter o direito constitucional de ter um dia que seja na vida de rica! Faz bem e não é pecado! Fecha parênteses.

Permitam-me primeiro apresentar-lhes Altimar. No nosso primeiro contato ele esbanjou muito mais simpatia do que entusiasmo. Como ele mesmo se descreveu para mim, é um homem da água. Seu pai era pescador e sua avó parteira na pequena ilha onde moravam. No dia em que sua mãe entrou em trabalho de parto, o pai dele a colocou em um barco para ir até a ilha mas Altimar resolveu não esperar pelas mãos da avó e nasceu no meio do caminho. E desde então, palavras dele, nunca mais saiu da água.

Aprendi com Altimar que Maria Velha é o nome que os locais dão a uma espécie de garça que é bem menor, de penugens pretas e mais esperta que as garças comuns que conhecemos. Segundo ele o motivo da esperteza é que, diferente da garça ordinária que pára estanque em um local do mangue aguardando que os peixes venham até ela, a Maria Velha procura as pequenas poças espalhadas pela costa onde peixes pequenos se acumulam e fica mais fácil capturá-los. A Maria Velha nunca fica com fome. Mas a garça comum às vezes volta de barriga vazia. Nesse momento Altimar encurvou todo o corpo, colocando ambos os braços para a frente e os entrelaçou, me mostrando como era uma garça de barriga vazia. Acho que a Maria Velha leu Eclesiastes 11:4 – “Quem fica observando o vento não plantará, e quem fica olhando para as nuvens não colherá.”

Foi também com Altimar que aprendi que é na maré morta (veja que ironia), aquela ditada pela lua minguante (a lua mais sem graça, menos aguardada) a melhor época para se observar com clareza e nitidez os corais e peixes no fundo das piscinas naturais da região. Qualquer transliteração para a vida real não é mera coincidência. Não seria na época de maré morta da vida, quando a lua é pequena e de pouco brilho, que melhor enxergamos o que guarda o nosso interior?

Seguimos caminho e nossa primeira parada foi na Ilha da Pedra Furada. Altimar me deu duas sugestões: ficar o tempo que quisesse e tirar muitas fotos. Desci da lancha e, ilha adentro, comecei a recordar de como tinha sido ter estado ali sete anos atrás. Precisamente sete anos, pois minha primeira visita a essa ilha se deu entre os dias 06 e 08 de Janeiro de 2009 quando, na companhia de Jorge e quatro meses antes de nos casarmos, estávamos nessa região com a família de um grande amigo.

Foi então que, pela primeira vez, meus olhos lacrimejaram na viagem. Nenhuma lágrima quis se juntar ao oceano que estava ao meu redor, mas me diziam precisamente o porquê de estarem ali. Diante do furo na pedra, que naquele momento parecia simbolizar um portal que separava duas realidades, olhei para trás e comecei a orar. E minha oração foi de gratidão a Deus por tudo que aconteceu ao longo desses sete anos que se passaram. Agradeci por todas as viagens que fizemos, pelas risadas que demos, pelo que aprendi. Mas olhei também para a frente e disse a Deus que eu não sabia o que me aguardava nos sete anos que estão por vir.

Na verdade, nem tenho certeza se terei sete anos ainda de vida, mas pedi a Ele que não importam quantos sejam os dias de vida que ainda terei, que sejam todos vividos em Sua presença. Para as mais apreciadoras dos significados dos números na Bíblia, sete indica completude, perfeição. Será que estaria Deus marcando um tempo na minha vida, exatamente sete anos depois, exatamente no mesmo local onde eu estava? Não tenho resposta para essa pergunta, mas desejei ardentemente continuar olhando para a frente.

Depois de algum tempo e poucas fotos voltei para a lancha e seguimos apara a segunda parada. O local chamava-se Prainha, fazendo jus à pequena faixa de terra que formava a praia, um local agradabilíssimo para banho. Água morna e bem parada, quase todas as embarcações ancoravam ali, embora no momento em que lá chegamos houvesse apenas uma: Navegue com Jesus, era o nome do barco!

Inspirado por ele, fiz minha segunda oração. De barriga para cima e flutuando na água, agradeci ao Senhor por ele estar navegando comigo ao longo de todo esse tempo. Agradeci por Sua doce presença no meu barco ao longo deste quase um ano de avassaladora tempestade. E pedi a Ele que me ajudasse a continuar navegando em Sua companhia e a nunca querer saltar do barco a menos que Ele convide para que o faça.

Novamente após algum tempo e poucas fotos, voltei à lancha e seguimos para encomendar nosso almoço em um restaurante na terceira e última parada, a ilha do Sapinho. Foi aqui que avistei outra pequena e inspiradora embarcação: Deus é fiel. Comecei minha terceira oração agradecendo ao Senhor por sua fidelidade. Não a mim (não consigo ver respaldo bíblico para Deus ser fiel a nós, mesmo porque o apóstolo Tiago vai dizer que se formos infiéis Ele permanece fiel, pois é Deus e não pode negarse a si mesmo). Mas agradeci por Ele ter permanecido fiel a si mesmo e às palavras que me disse até aqui. Lembrei da promessa que o Senhor me fez no dia 08 de Março de 2015, meu primeiro Dia Internacional da Mulher como viúva, quando Ele me disse que tinha graça suficiente para fazer de mim, em 2015, uma mulher alegre, bonita e profissionalmente bem-sucedida. Se você caminhou comigo um pouco que tenha sido neste tempo, é capaz de julgar se isso se cumpriu.

Nesta última ilha ficamos a maior parte do tempo. Almoçamos, e pude ver o cair da tarde trazer de novo nuvens pouco mais escuras e densas, como que anunciando chuva. Fiquei sentada contemplando aquele cenário. A maré começou a baixar. Vi folhas que caiam das árvores sendo arrastadas pela correnteza. E aqui me lembrei que nada acontecesse sem que Ele permita, inclusive o esvair da vida e história de alguém. Agradeci a Deus por sua soberania e poder.

Vi também uma pequena aranha andando célere sobre a lâmina de superfície de água. Talvez aqui tenha fixado pouco mais minha atenção. Pensei em como aquilo parecia ser tão simples para aquele bichinho mas para Pedro, ainda que sob a voz de Jesus, foi um enorme desafio. E me vi pequena, impotente diante de um universo tão vasto e bonito, feito pelas mãos de um sábio e amoroso Criador.

Se Ele faz aranhas andarem sobre as águas, também pode me conduzir pela mão acalmando ventos e tempestades.

 

Terminei então orando a música “Morada”:

 

“Quando eu estava longe Ele me estendeu a mão 

E na minha fraqueza Ele me fez ser forte 

Quando me perdi ele me achou  

 

Até o pardal encontrou casa pra morar 

E a andorinha já achou o seu lugar  

 

Eu encontrei um castelo 

Feito pela tua bondade 

Sustentado pelo teu amor 

Iluminado pela tua glória  

 

És a minha morada 

Eu amo a minha morada 

Jesus é a minha morada 

Não importa o que tem lá fora”

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