Uma das primeiras coisas que ganhei de presente após a morte de Jorge, depois de abraços e lágrimas compartilhados, foi uma caixa de Rivotril. Duas, na verdade. Uma com comprimidos de 0,5mg e outra contendo comprimidos de 2mg. Era algo como que contendo uma instrução de “use essa nos dias de dor menor e esta outra nos dias de dor maior”. Rivotril é o nome comercial do Clonazepam, uma droga da classe dos benzodiazepínicos. Dispensando uma explicação farmacológica mais detalhada, nada mais é do que uma substância que age no sistema nervoso central produzindo efeitos sedativos, relaxantes musculares, ansiolíticos e anticonvulsivantes.
Nunca havia feito uso de tal medicação e a recordação que tenho do que aconteceu depois de ter ingerido naquela noite, meio que a contragosto, dois comprimidos de 0,5mg (acho que foi essa a quantidade que me deram), foi de estar deitada numa cama, com duas amigas me olhando a uma certa distância. Me lembro de lutar para que meus olhos não fechassem e implorava a elas, tentando estender um dos braços que parecia pesar uma tonelada, que não me deixassem dormir.
Perdi a luta e acordei no da seguinte sozinha no quarto, ouvindo a voz dos meus pais e me dando conta que eu deveria me preparar para o sepultamento. Não consegui falar muito. Findado aquele momento inexplicavelmente doloroso, mais um comprimido antes de pegar a estrada de volta para casa. Talvez assim eu tivesse uma noite leve e tranquila, de músculos relaxados e sem histeria.
Definitivamente aquela noite, assim como tantas outras noites, tardes e madrugadas, não foi assim. Estou certa de que não gritei na volta para casa e talvez tenha conseguido dormir. Entretanto, isso nem de longe traduzia que por dentro as coisas estavam reparadas. Naturalmente, seria um equívoco ou mesmo incoerência da minha parte, como médica, dizer que a medicação foi inútil ou um exagero de quem se preocupou em comprá-la. Pelo contrário. Devemos ser honestas o bastante conosco mesmas para admitir que há momentos em que medicações como essa se fazem necessárias, e eu vivi tais momentos.
Um dos primeiros dos quais tenho lembrança foi o domingo, 08 de Março de 2015, precisamente o Dia Internacional da Mulher. O mesmo domingo em que Deus havia me falado coisas tão especiais e que eu havia decidido comprar sapatos novos para marcar, talvez, o início de algo novo para mim que seria o estágio de Ecocardiograma, o qual começaria no dia seguinte. Tudo parecia bem dentro do shopping até que a quantidade de casais e crianças ao meu redor, todo aquele ambiente de alegria generalizada me inundou. Comecei a chorar lá mesmo, no meio de todas aquelas pessoas. Fui trazida às pressas de volta para casa e me deram Rivotril.
Lembro-me também de uma noite de sábado em que um casal de amigos me visitou e teve a infelicidade de me encontrar em uma noite de dor maior. Chorava e gritava muito e, meio que em uma espécie de surto, insisti com eles que me deixassem procurar Jorge na dependência do apartamento, pois era o único espaço físico da casa onde eu ainda não havia vasculhado à procura dele. Ressalto aqui que neste dia já haviam se passado alguns meses de sua morte! Ganhei mais dois comprimidos de Rivotril. Como das outras vezes, parei de gritar, dormi e, exatamente como nas outras ocasiões, as coisas continuavam quebradas por dentro.
Sinceramente, não me recordo a última vez em que fiz uso dessa medicação. Talvez tenha sido precisamente neste dia citado no parágrafo anterior. Mas me recordo perfeitamente da última vez em que desejei fazê-lo. Foi um domingo, em que me sentia profundamente triste, profundamente só e profundamente desesperada. Sentia uma dor na alma que achei que fosse me matar. Torci para que isso acontecesse. Perguntei a Deus porque Ele não me levava também, já que suportar tamanha aflição estava se tornando impossível para mim. Segurei quatro comprimidos de Rivotril na mão e chorei durante horas, entrecortadas por alguns momentos de cochilo superficial ditado pelo extremo cansaço. Vi o dia passar fechada no meu quarto e fiquei quase 24h seguidas sem comer.
Daqueles quatro comprimidos que segurava, nenhum deles foi ingerido naquele momento. Talvez o cansaço tenha me feito adormecer. Mas sei de algo que me sustentou e me fez acordar na segunda-feira pela manhã e sair de casa para trabalhar: a graça e a misericórdia de Deus renovadas mais uma vez, derramando aquela paz que só Ele pode dar (João 14:27); aquela que, como a Bíblia diz, excede nossa capacidade de entender (Filipenses 4:7). Sim, eu também vivi dias de paz que nem eu saberia explicar!
Acabei de contar e resta apenas um comprimido de 0,5mg da caixa que continha trinta deles. A caixa com os comprimidos de 2mg se quer chegou a ser aberta. Contando que apenas nas primeiras 48h após a tragédia eu tomei quatro comprimidos e nas duas ocasiões citadas aqui mais quatro, foram usados até hoje, DEZ MESES E VINTE E OITO DIAS após, vinte e um comprimidos! Confesso que tomei um susto, pois não me recordava de ter usado vinte e um comprimidos até então!
Nenhum problema nisso! Mas sabe a que conclusão eu chego? Já se passaram trezentos e vinte e oito dias, para vinte e um comprimidos. Na maior parte dos dias não houve Rivotril. Mas em nenhum deles eu deixei de contar com a mão poderosa, a destra forte, do Deus que faz abundantemente além do que eu pude pedir, pensar ou imaginar!
“Àquele que é poderoso de realizar infinitamente mais do que tudo o que pedimos
ou imaginamos, de acordo com o seu poder que age em nós, a Ele seja a glória na
Igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, por toda a eternidade. Amém!” (Efésios 3:20).
