14 de julho de 2016
Sobrevivendo

Solange

Desta vez o nome não é fictício. Solange é o nome real da minha babá. Isso mesmo, o pronome não está errado; é minha babá, não dos meus filhos. Mesmo porque não os tenho. Solange é a pessoa que cuida, e muito bem por sinal, da minha casa e também de mim em muitos sentidos desde junho de 2009. Solange começou a trabalhar conosco por indicação de alguém muito próximo a mim, indicação esta aceita embora eu pessoalmente não tivesse qualquer referência da qualidade do seu trabalho. Admitido sem a menor hesitação que não me arrependo nem por um segundo!

Mas a história poderia ser diferente. Na quinta passada, enquanto almoçava e conversava com ela, ri sozinha lembrando-me de que cerca de dois a três meses depois que começou a me ajudar, Solange disse que queria conversar comigo. Muito desajeitada (e ela assim o é até hoje, o que a torna também especial) ela disse que estava ganhando pouco, o que sinceramente me assustou. Não pelo conteúdo de sua colocação, mas pela coragem dela em a expor com tão pouco tempo no novo emprego. Covarde que sou, e também por reconhecer que poderíamos dar um salário melhor, preferi não entrar em grandes argumentações. Perguntei a ela quanto ela achava que deveria ganhar ao que ela respondeu que não sabia (agora você veja!) mas achava o salário em vigor pequeno. Propus então um reajuste, o qual ela aceitou e desde então mantemos uma relação que hoje é muito mais de amizade e parceria, do que simplesmente empregatícia.

Fiquei o restante do almoço pensando em quantas bênçãos Deus já teve para mim que se apresentaram inicialmente como um desafio, um desconforto, ou até um incômodo. Tem bênção que quando surge não tem cara de bênção. Não tem gosto de bênção, mas ainda assim o é. Nem eu nem Solange fazíamos a menor ideia do que seria o nosso futuro e dos vínculos que seriam criados; ela não fazia ideia da dor e solidão que me veria experimentar nem eu, talvez, do quanto fosse precisar de alguém como ela em dias tão difíceis. Naquela época eu era uma menina amarela de vinte e quatro anos, recém-casada, recém-formada e recém dona-de-casa. Era muita coisa nova para uma pessoa (imatura) só e eu preferi evitar conflitos. Em certo sentido, eu não queria ter o trabalho de tão rápido ter que procurar outra pessoa. Solange ainda não havia tido tempo hábil de me convencer que valeria a pena dar o aumento. Mas o fato de tê-lo feito me proporciona até hoje ser muito abençoada pelo trabalho dela.

Enquanto almoçávamos hoje ela me lembrou de que algumas coisas estavam em falta na casa. Começou a fazer a lista do supermercado e eu disse que assim que terminasse a refeição iria fazer as compras. Como já havia dito que estaria de plantão à noite, ela sugeriu que eu deixasse para ir quando tivesse mais tempo e descansasse o restinho da tarde. Não demorou para ela mesma concordar que eu não tenho esse tempo todo para escolher o dia de ir ao supermercado. Saí de casa já me despedindo pois sabia que quando voltasse não a encontraria mais. Voltei com as sacolas e quando entrei no meu quarto a roupa que uso para dar plantões noturnos estava passada e dobrada em cima da minha cama e meu almoço para o plantão de amanhã devidamente embalado na geladeira.

Há sete anos, para Solange era só um pedido de aumento após menos de três meses no emprego novo. Para mim era a realidade desconhecida de lidar com um pedido desses. Agora está mais do que claro que ela é uma bênção para mim e espero também o ser para ela. Ainda bem que o aumento foi dado em dois mil e nove. Hoje ela não precisa nem pedir.

Graças a Deus por Solange.

Cadastre-se e receba novidades.