17 de outubro de 2018
Reverdescendo

SURF

Você se recorda do Gabriel Medina? Ele é um jovem surfista brasileiro que há alguns poucos anos foi campeão mundial de surf. Lembro-me que depois disso ele apareceu em alguns programas de televisão, deu muitas entrevistas, virou garoto propaganda de algumas marcas. Foi por este tempo em que ele estava mais em evidência, num dos raros momentos em que eu paro diante de uma televisão, que vi uma reportagem sobre o treinamento dele.

Uma das partes que mais me chamou a atenção foi quando mostraram Gabriel andando debaixo da água, no mar, carregando uma pedra pesada o suficiente para ter de ser segurada com as duas mãos. A profundidade não era absurda mas aquela necessária para mantê-lo por completo imerso na água, com o corpo discretamente curvado. O exercício consistia em caminhar alguns passos, com o corpo todo coberto pela água e, portanto, sem respirar, carregando a pedra. O padrasto e treinador de Gabriel explicou que esse era um dos principais exercícios de surfistas profissionais.

E qual a finalidade disso? Para o surfista de grandes ondas, é necessária uma alta capacidade de conseguir permanecer um período mais longo debaixo d´água, caso aconteça dele cair antes da onda quebrar, e também força física para voltar à superfície. Portanto, era um exercício de treinamento de apnéia e força. Talvez para mim e para você andar alguns passos debaixo da água carregando uma pedra pareça loucura, mas para quem almeja ser campeão mundial de surf, fazer isso é absolutamente necessário.

Tenho me lembrado bastante dessa cena do treinamento de Gabriel Medina nesses últimos dias. Isso porque olhando só um pouco para trás, vejo que Deus me colocou em situações de vida que mais se parecem com esse treinamento. Não dá pra querer estar na crista da onda, nem literalmente falando, sem ter capacidade de apnéia e sem ter força. E o que gera essa capacidade e essa força é um tempo prévio de desconforto, aperto, talvez até certa angústia, carregando pedra debaixo d´água.

Não se pode querer estar em uma boa posição no ranking da vida – e aqui não estou nem de longe falando em dinheiro ou status social – sem a fase árdua de antes. E vejamos que curioso – essa fase árdua só vem à tona quando o resultado que ela gera fica evidente. Talvez se Gabriel nunca tivesse sido campeão, apenas pouquíssimas pessoas saberiam o que lhe custou chegar lá. Vou ser redundante: não se fazem campeões que antes não carregam pedras.

Você já se perguntou se uma fase árdua da sua vida, de situações adversas, desconfortáveis, angustiantes, não podem servir para que você adquira as habilidades necessárias, quaisquer que sejam, para o que virá depois? De maneira geral nós queremos evitar essas situações. Nada mais natural, ninguém gosta de sofrer ou sentir dor. Não pretendo aqui também fazer apologia ao sofrimento – se tem alguém que detesta sofrer, sou eu. Creio sim que precisamos abrir os nossos olhos para reconhecer que algumas posições simplesmente não podem ser ocupadas por quem não foi preparado para estar lá. E muitas vezes o jeito que a vida (ou Deus) nos prepara não é nada simpático.

Quer um exemplo bíblico? Porque você acha que José passou um tempo sendo mordomo na casa de Potifar? Ali o Senhor o estava ensinando a ser um administrador – primeiro, de uma casa; depois, de um grande reino. Porque Davi ficou um tempo esquecido nos pastos cuidando das ovelhas do pai? Ali o Senhor o estava ensinando a defender a si mesmo e suas ovelhas de urso e leão, porque depois ele teria que defender a si e a seu povo de Golias e exércitos inimigos.

Uma das orações de Davi que minha mãe me ensinou ainda nova até hoje eu repito com certa frequência: “Bendito seja  Senhor, rocha minha, que treina as minhas mãos para a batalha e os dedos, para a guerra” (Salmo 144:1). Deus nos treina para a batalha da vida! Precisamos reconhecer que esse treinamento dificilmente será tomando água de côco na areia. Na maior parte das vezes, chega uma hora que teremos que carregar pedra debaixo da água, sem respirar. Dali vem nossa habilitação para estar na crista das maiores ondas e no topo do ranking.

 

Larissa Santos Novais

 

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