22 de novembro de 2016
Aprendendo

Última lição – pt. 1

Poderia valer-me da célebre fase do poeta Carlos Drummond de Andrade e dizer que “havia uma pedra no meio do caminho”. Em verdade, trazendo para a situação real, deveria dizer que havia muitas pedras no caminho. Em Noronha sempre há pedras no caminho, mas em recompensa, elas sempre levarão a um lugar de beleza talvez incomparável. Mas não há só pedras. Há ladeiras, areia, sol quente, trilhas desertas no meio da mata, tudo isso escondendo cenários que, quando vistos, arrancarão um suspiro de valeu a pena.

Poderia usar então esses elementos e, como metáfora, dizer que assim é a vida. Cheia de obstáculos, caminhos tortuosos, às vezes difíceis de serem percorridos. Mas, se é por algo que se valha a pena, justifica-se o sacrifício. Clichê? Sim, concordo.

Clichê. Deve haver algumas centenas de livros de autoajuda com ideias do tipo “seu esforço será recompensado”; “tudo de real valor exige algum grau de sofrimento e renúncia antes de ser conquistado”.

Poderia também lembrar-me dos albatrozes que agilmente mergulhavam nas águas transparentes e quase que com a mesma velocidade saiam de lá com um peixe na boca. Poderia lembrar-se dos golfinhos que dançavam ao redor do barco no qual fizemos um passeio quase perfeito não fosse a chuva que nos surpreendeu brevemente no caminho. Ou lembrar-me dos dois tubarões que fizeram pouco caso dos mergulhadores que estavam sendo batizados nas águas Noronhenses (dentre estes esta que vos escreve) ao seu redor. E poderia usar todos esses encantos da natureza para dizer que a grande lição trazida de lá é que se Deus alimenta esses bichos todos, quanto mais nós, mulheres de pequena fé, para usar a mesma expressão que Jesus usou em Mateus 6.

Mas a maior lição que trago, e a última delas, não foi sobre perseverar diante dos obstáculos da vida pois, uma vez vencidos, levarão a um lugar melhor. Tampouco foi sobre crer na provisão de Deus, já que pude contemplar bem diante dos meus olhos Ele sustentando um habitat tão incrivelmente belo, harmônico e grandioso, lembrandome que valho mais do que cada tartaruga tão bem cuidada pelos profissionais do projeto Tamar.

Ao acordar no dia de arrumar as malas, preguiçosa, cansada e até em dúvida se queria ficar um pouco mais, agradeci a Deus por ter me proporcionado a realização de mais este sonho e perguntei a Ele qual lição Ele gostaria que eu levasse dali.

Resposta que obtive: “Nenhuma”. Não havia nenhuma tarefa de casa a ser feita. Não havia nenhuma missão que deveria ser rigorosamente cumprida. Não havia decreto divino (a não ser os ordinários) da semana para seguir.

Por mais que eu negue, para mim mesma e para os outros, ainda ajo como se precisasse de penitências para agradar a Deus. Ainda me porto para com Ele com o toma lá dá cá. Ainda me vejo como um soldadinho enrijecido dentro de um uniforme pronto a cumprir ordens do seu (Ser) superior, sem que este superior nutra por mim qualquer grau de afeto. Meus olhos ainda parecem embaçar quando tento ver Deus como Papai.

Então, se não havia nenhuma lição, o que aprendi?

Conto depois.

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