25 de abril de 2017
Reverdescendo

Uma certa mulher

Eu sou fã da Bíblia, o que a essa altura não deve ser mais uma surpresa para você. Posto isto, para fins da nossa conversa; vou precisar resumir um pouco a história, mas leia com calma, quando for possível.  Se você abrir o livro de Juízes, o sétimo livro da Bíblia e segundo após o pentateuco, verá que a nação de Israel passou a viver um tempo bem confuso depois da morte de Josué. Deus então “suscitou juízes, que os livraram das mãos dos que os pilharam. Contudo, não obedeceram aos seus juízes; antes, se prostituíram após outros deuses e os adoraram”. (Juízes 2:16b,17).

E nessa de não obedecer, o povo sofreu. Então no capítulo seis começa a ser contada a história de Gideão, o homem que Deus usou para livrar Israel da opressão dos midianitas, os quais “se acampavam, destruindo os produtos da terra até à vizinhança de Gaza, e não deixavam em Israel sustento algum, nem ovelhas, nem bois, nem jumentos”. (Juízes 6:4-5). Gideão não era exatamente um Aécio Neves de sua época. Era o mais jovem, da família mais pobre, da menor tribo de Israel. Cenário perfeito para o fracasso.

Entretanto, como normalmente são as coisas de Deus, contrariando o óbvio, foi esse cidadão que junto com apenas trezentos homens destruiu um exército de mais de vinte mil (acredite você ou não). Gideão fez quase tudo certo, mas depois de muitas conquistas fez para si uma manta sacerdotal “que ele colocou em sua cidade, em Ofra. Todo o Israel prostituiu-se, fazendo dela objeto de adoração; e veio a ser uma armadilha para Gideão e sua família” (Juízes 8: 27-28). A família de Gideão era bastante grande! Ele se casou com umas duas dúzias de mulheres e teve setenta filhos (também acredite você ou não; isto está registrado no versículo 30 do capítulo

8)!

Um desses filhos, nascido de uma das concubinas de Gideão (que não era considerada esposa) foi Abimeleque, que teve a brilhante ideia de matar os seus irmãos para assumir a liderança do povo no lugar do pai. O único que sobrevive ao massacre é Jotão, o filho mais jovem, que usa de uma parábola para profetizar que Abimeleque seria derrotado e morto. Depois de três anos vivendo por cima da carne seca em Israel, Abimeleque sofre uma conspiração por parte de Gaal e os homens que o seguiam.

Eles brigam, Abimeleque ganha, percorre a terra invadindo várias cidades até que chega a Tebes, “e a sitiou, e a tomou” (Juízes 9:50). Acontece que no meio da cidade havia uma torre forte, e a Bíblia registra que “todos os homens e mulheres, todos os moradores da cidade, se acolheram a ela, e fecharam após si as portas da torre, e subiram para o seu telhado” (Juízes 9:51).

Você consegue imaginar a cena? Um aglomerado de pessoas no telhado de uma torre tentando escapar da morte por um homem tirano, que havia sido capaz de matar todos os seus irmãos pelo poder, que já havia conquistado outras cidades e dizimado muitas pessoas nelas (Juízes 9:45)? Parece desesperador; aliás, parece morte certa.

“Abimeleque veio até à torre, pelejou contra ela e se chegou até à sua porta para a incendiar. PORÉM CERTA MULHER LANÇOU UMA PEDRA superior de moinho

sobre a cabeça de Abimeleque e lhe quebrou o crânio” (Juízes 9:53). Abimeleque teve um TCE (traumatismo crânio-encefálaico) que não o matou de imediato, porque ele ainda teve tempo de pedir a um dos seus soldados que o atacasse com uma espada para que não corresse a história de que ele havia sido morto por uma mulher (cap. 9 vers 54)!

Sabem o que eu aprendo com essa certa mulher, anônima, mas cujo ato consta no livro mais importante do mundo? Há situações na vida em que eu não posso lidar com o Abimeleque atirando ovos ou pedras de bodoque em sua cabeça. Quando o Abimeleque da vida pode incendiar a torre e me matar, eu preciso ter coragem suficiente para atirar uma pedra superior de moinho direto no crânio. É óbvio que não estou falando aqui de matar ninguém.

Mas penso nas situações que nos ameaçam, a exemplo de Abimeleques (e aqui podem ser realmente homens) que nos rondam sem nenhum interesse no nosso coração; relacionamentos destrutivos; práticas do dia a dia que nos afastam do caminho de vida (a exemplo de falta de perdão); atitudes que tomamos apenas para satisfazer essa ou aquela pessoa, mas que nada têm a ver com nossa integridade interior. São Abimeleques que podem incendiar a torre e matar não só a nós mesmas como também aqueles que conosco estão refugiados no telhado da dela.

Com esses, não brinque de pedrinhas; não atire água quente; não trate com leviandade. Se essa situação é um Abimeleque, peça a Deus coragem para atirar uma pedra superior de moinho bem no crânio. Acabe de vez. Aparte-se de vez.

E saia do telhado.

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